15 de dez. de 2007

Água

Num dia cinzento, lágrimas de chuva
caem no rosto de quem sai à rua.
E confundem-se as gotas de mágoa
com as lágrimas das gotas d`água.

Tempestades, chuvas ou garoas,
trovões fortes nós soluçaremos.
Nas enchentes não faltarão remos
para sobrevivermos nas canoas.

Movimentarmos sobre as águas tensas
com a força grande que nos há no braço.
"Que fazer?", dirás, no entanto pensas,
que remando é que se vai ao espaço.

Tudo volta, a nuvem liquefeita,
dispara à terra a água evaporada.
E a natureza uma vez mais espreita:
a perpétua vida a nós é que foi dada.

Mas há um ciclo, um ciclo em plenitude,
da história, d`água, e das oitavas.
E os muitos acordes de um alaúde
são os mesmos numa mesma escala.

Viver um ciclo é saber que o agora
repetirá a si mesmo, ignorante.
A chuva que cai daqui a meia hora
é a mesma chuva de qualquer instante.

Poema caolho

Estou com um olho aberto
e o outro fecho para ter
a visão de um olho certo
e outro na mente quero ver
se o que um olho enxerga
fica claro quando sonho.
Se o que me é meio medonho
sem meio medo se enverga
e entorta as vibrações
paralisadas na retina.
Arsênico, estricnina!
O veneno na metade
isolada do pensamento
entra com poeira e vento
e com a imagem pela córnea.
E se isola, e se inverte,
e fica fosco, sai do foco.
Para que tudo se desperte,
para que o muito seja pouco.
Vejo tanto, estou perplexo,
com o que fica no reflexo,
com os atos que não vejo,
com o lábio que não beijo.
Tanta coisa eu desejo,
nem tanta coisa acerto.
Por isso fecho um olho
e o outro fica aberto.

Meta de

Eu quero viver alto:
perder-me na minha altura.
Quero voar, e num salto
sentir o vento numa noite escura.
E ter a certeza de que a vida
é essa que sinto nas veias.
Fazendo e curando feridas,
construindo e quebrando teias.
Quero ter infinitas metades:
metas de uma vida inteira!

Com teus doces e teus sais

Adoro ver-te,
ainda que madura não te veja mais.
Eterno flerte:
adoro os teus doces
e teus sais.

Se tudo fosse doce, meu amor,
as coisas tais
a tal ponto que eu diria:
"nem os sais do teu peito, nem os seios teus tão doces".
E aí, que sobre teu gosto,
anteparo, antepasto, anteposto
e tudo o que temos no osso:
nossa complexa medula
que nos permite esses reflexos
tão certos e animais
e que me adula aqui, Eu perplexo!
Com teus doces e teus sais!

Entiência

Não adianta ficar reticente,
você vai sumir com essa reticência.
Quando o meu hálito quente
queimar toda a sua carência.

Pois o que há entre a gente
não explica a razão, nem a ciência.
E o fogo que a gente sente
não pode ficar só na aparência.

Por mais que a gente invente,
não existe tal ardência.
Gostamos da nossa mente,
forte paixão e inteligência.

Não há coração que aguente
a distância da inconsistência.
Meu desejo é paciente,
e o seu é violência.

E tudo o que a gente mente
é só um pedido de clemência.
Por mais que esfrie e vente,
incendeia mais a inconsciência.

Toda louca

Dou um beijo, o seu corpo se arrepia,
e seus olhos ficam claros como o dia.
Dou outro beijo, agora no seu seio,
e perco o canto, o teto, o Sol, o ar e o meio.

Vou beijando, e agora já no umbigo,
esquecemos já aquele amor de amigo.
Mais beijos e a eternidade vira um instante,
e o nosso amor já é mais amor de amante.

Já no solo, nossos corpos se desnudam
pele e pele já se tocam, já transferem
calor de lado a lado, os corpos querem
se colar, se calar e se saúdam.

Já não quero mais estar em outro lugar
que não dentro do seu corpo em corpo e alma.
Já não quero respirar mais outro ar,
senão aquele que você expira com calma.

Eu me sinto tão molhado e tão intenso
do seu suor, do seu prazer, de sua beleza.
Um pedaço de mim cresce, fica imenso,
diante do desejo e da certeza.

E se já vai sentir o orgasmo em toda parte,
eu já sinto aqui em mim o intenso choque.
Se de dentro sai o gozo como arte,
de fora vem a força, o ar e o toque.

O toque dos meus lábios na sua boca
encerram essa tarde em poesia.
Quisera eu ter seu corpo todo dia
e deixar-lhe toda viva, toda louca.

Teoria

Massa, matéria,
tem tamanho o universo
e o verso, sentido.
Tem um tempo de vida
e uma parte semente.
Tem uma explosão no espaço
os bits espalhados
em milhões de estrelas
- eu quero ir lá vê-las
e queimar a pele
com os seus vários mil kelvins
acima do absoluto
do zero, que abaixo
se chega ao plasma, estado
divino da matéria.

Tanta falta de prática,
tanta matemática
rasteira, besteira
pra identificar padrões
da bobagem financeira!
Os jogos do tal Nash
que jogam no escuro
do buraco negro
milhões daqueles dólares
num tal de risco-país
que risca o país
do mapa, dá um tapa,
mas o país se levanta,
pois as curvas de kondratieff
sobre o capitalismo
já mostravam que ele vive
de sucessivas crises,
mas será que isso é só
falta de prática?

É um estranho quadrado
tem todos os lados iguais
mas quadridimensionais.
É um tal de hipercubo
que só existe na mente
na conta, na equação,
no pensamento inconteste
do gênio, que nada sabia
e nada cabe a quem nada sabe.
E o gênio entendia
ele fora avisado
que para toda equação
há uma inadequação.
Quem disse, afinal,
por bem ou por mal,
deveria ter se calado
E != mc2

Just another dream

Just another dream,
one after another
going through the stream
and you just don't bother!
As long as it seemed
it didn't seem to be a problem
and it was sort of keen,
and dreams conflicted with each other
- Just another dream
they would say. "Just another"
"just another dream and I don't bother!"
And the dream that they would talk,
during every walk,
was about going through the clock.
And the dream that they would say
they would have every day
was a dream where they would wake up
with the light of the Sun.
They would do so many things,
they would go around the ring,
they would love themselves and grin:
in their dreams they had awaken.
And they would have never seen,
although it could be taken
for granted, as it has been,
that life was just a dream:
although it seemed we were walking,
we were never awakened.

Insight

Insight
could only be born
from brainstorm.

Sinapsis around the clock
in a single, stable shock,
able to create ideas.

At night,
when the body rests,
the mind works fast
to stabilize life.

Dreams
as it seems
are insights of our ways:
feelings we had during the days.

In dreams
we create the most of our lives,
kids, lovers, wars, wives,
everyone we know, any family member,
although we cannot remember
are there in our world
of Plato, in image and word,
we fight without a sword
with our sinapsis during the night.
This is the definition of
insight.

Pista

Olhos elétricos
procuram a corrente elétrica
no olhar alheio.

Corpos alhures
buscam almas
algures.

Bocas nervosas
querem beijar os lábios
sorridentes.

Corpos desequilibrados
pelo som da música
encostam-se uns nos outros.

Tocam-se
sem a intenção de tocar
mas com a intenção de tocar.

Na pista
o paradoxo do amor
se encontra em plenitude.

Mas na pista não há amor
só atitude.


A tarde ficou mais comprida
O Sol demorou mais a sumir no horizonte
E a Lua apareceu amarelada, diferente,
Sem nuvens na frente
Sem ninguém que conte
As estrelas.

Então
O Sonho virou história perdida,
A História, literatura vencida,
A Vida, a vida virou Vida.
Como todas as coisas superiores,
O Medo ainda permanecia
A pairar por entre O Sonho, a História e a Vida
A manifestar-se como obra empírica
Nesta poesia lírica
Onírica
Satírica.


Bem neste lugar onde você está
Lendo este poema, atentamente,
Perdido nos pensamentos que só a gente
Tem quando lê poemas,
Não se assuste.
O poeta que o escreveu
Saberá que você está lendo.
Não porque lhe examina,
Mas porque vivendo.

Graciosa

Flores deixarão seus aromas na sua pele esta manhã.
Abrirão suas pétalas, se deixarão polinizar.
Flores virarão frutos. A hortelã
deixará o seu aroma no ar.
E tantas coisas deixarão em você marcas
que você vai ser parte do seu dia.
Tudo o que você ver, coisas lindas ou parcas,
irão causar-lhe igual tristeza ou alegria.
Não existe alegria sem tristeza,
nem sequer há som sem silêncio.
Nem se conhece o feio sem a beleza
nunca se viu a calma sem o intenso.
Todas as cores que você mirar
vão tornar-se códigos na sua retina.
E a mulher que você vai encontrar
estará escondida na eterna menina
que a tudo observa, que a tudo vê,
que nada sabe, mas quer saber.
E cada sabor que você sentir
ficará gravado na sua memória.
E todo idioma que você aprender
trará consigo uma grande história.
Tudo no seu dia vai estar em você
porque o seu dia é o que lhe altera.
A vida nos transforma, e saber viver
é reconhecer a bela e a fera.

Entrevista - Fernando Alvarenga

Fernando Fild de Alvarenga foi atropelado quando dirigia uma moto por um ônibus que ultrapassou um farol vermelho. Passou por 39 cirurgias, 189 implantes de platina e 219 pinos e muitos transplantes de sangue. Brigou com a família e decidiu morar na rua. Descobriu que tinha adquirido o HIV durante o transplante. Revoltou-se e planejou um grande assalto. Foi preso. Virou budista na cadeia e agora é escritor. Um homem com uma história absolutamente diferente. Raramente diria-se que uma pessoa que pede dinheiro nos faróis de São Paulo pode falar 4 línguas além do português. Sentando num banco do pequeno McCafé do McDonalds da esquina da Al. Joaquim Eugênio de Lima com a Av. Paulista, Alvarenga concedeu-me uma entrevista sincera que fala sobre a vida, sobre política, sobre religião, sobre sociedade, sobre misticismo... enfim, sobre tudo. Ele ia falando e lendo um exemplar da Folha de S. Paulo sempre muito sereno, sem aumentar ou abaixar demais o tom de voz e sem mudar a intensidade do brilho de seus olhos. A sua entrevista foi gravada no ano de 2002. Pouco tempo depois Fernando acabou sendo preso, encontrado com pedras de crack. Muito do que ele disse pode ser fantasia de um homem maltratado pela vida. Mas certamente muitas lições de vida se pôde tirar de uma entrevista aleatória, feita às custas do acaso, com um sábio às avessas típico do cotidiano de uma grande cidade

Fernando conta uma trajetória de vida emocionante, em que nada acontece por acaso e ao mesmo tempo tudo é inexplicável. A entrevista durou uma hora. Nessa hora eu tive de tirá-lo de seu trabalho, que lhe rende o que a sociedade não é capaz de fornecer-lhe por si só. Ele não gostou muito, mas acabou aceitando fazer a entrevista.

Vale a pena conhecer este homem que se define assim: "Sou nada. Ao mesmo tempo, sou tudo".


O que é pedir?

Pedir é uma coisa insensata. Não se pede. Se corre atrás. Acho que as pessoas que pedem estão sofrendo de alguma coisa que nem elas sabem. Acho que não se deve pedir. Se deve correr atrás.

Você usa muleta, tem problemas motores nos braços... o que aconteceu com você?

Eu sofri um acidente de moto há 22 anos atrás. Infelizmente não foi minha culpa. Foi um motorista de ônibus. Ele atravessou o farol vermelho e me atropelou. Tem um processo na justiça faz 22 anos. Graças a Deus - como dizem as pessoas, eu não acredito em Deus, acredito nas pessoas - vou receber uma indenização no mês que vem. Estou contente, vou sair da miséria. Acho que é o seguinte: não sou revoltado, não sou recalcado. Sou deficiente, mas... não tem algo que me diz que eu tenho de ser otimista. Eu simplesmente sou.

Onde você mora?

Eu moro num hotel. Eu morava na rua. E aí eu percebi que se eu começasse a pedir dinheiro no farol eu podia arrumar 20, 25 reais para pagar um hotel. Faz 1 ano e meio que deixei de ser morador de rua. Estou morando num hotel.

E você trabalha nas ruas pedindo, quer dizer, esta seria sua atividade econômica. Qual é o seu ganho?

Infelizmente trabalho nos faróis. 60 reais por dia

60 reais por dia?

É. Por 3 horas de trabalho.

60 reais por dia em 3 horas de trabalho?

É isso mesmo.

Você fala bem, se pronuncia bem...

Lógico. Sou formado em Comunicação na FAAP, pela Unitau de Taubaté e fiz Pós-graduação na FGV. Mas não consegui emprego. Porque toda vez que passo num concurso eu perco a vaga pelo preconceito. Não admitem pessoas na minha situação. Mas não tem problema. Eu estaria ganhando de 32 a 42 reais por dia trabalhando como funcionário público e eu ganho 60. Portanto eu parei de lutar por isso. Eu tenho direito ao meu salário. Eu sei que o governo brasileiro é obrigado a assistir todos os deficientes, mas eu nem sei como recebo isso.

Quer dizer, a única razão de você não ter conseguido arrumar emprego até hoje foi o preconceito?

Na maioria das vezes o preconceito tem falado mais alto. Então, por esse tipo de preconceito, eu parei de procurar emprego. Hoje eu não preciso procurar emprego.

Quais concursos que você já prestou?

Eu já prestei 6 concursos aqui na Paulista. Dos 6 concursos que prestei em jornalismo, comunicação, marketing e principalmente no que eu sou especialista, comunicação visual. É uma coisa que vende muito, que tem um certo poder de vendas. Mas não tem jeito: o preconceito fala mais alto. Se eu estivesse empregado no meu campo, eu estaria ganhando 30 ou 40 reais por dia. E hoje eu ganho 60 no farol. Hoje eu não quero mais trabalhar na minha profissão.

60 reais por dia, em 30 dias dá 1800 reais.

Esses 1800 eu nem sei bem o que eu faço. Eu pago 25 reais do hotel, 5 reais de cachaça pois eu bebo todos os dias, 7 reais de comida e o resto fica para o dia seguinte.

Há quanto tempo você está vivendo nas ruas?

Há 10 anos. No hotel eu estou vivendo há 1 ano e meio, 2 anos. Estou há 10 anos fora de casa.

Você saiu de casa e não quer voltar de maneira alguma. O que aconteceu?

Não quero voltar de maneira alguma. Não sinto falta de ninguém da minha família, não gosto de ninguém da minha família, eu abomino qualquer tipo de família. Eu acho que família, para mim, é cachorro, gato e galinha. Não gosto de família. Família sempre tem sempre aquela tendência de criticar, de mandar. Você tem que fazer isso, você tem que fazer aquilo. E eu não gosto desse tipo de coisa porque eu sou auto-suficiente. Não preciso de ninguém para mandar em mim. Eu estou há 10 anos longe da minha família. Não sei se minha mãe morreu. Não sei se meu pai morreu. E nem quero saber. Para mim não fará a mínima diferença. Só sei que está perfeito para mim assim.

É. Parece estar perfeito para você. Nas empresas, estagiários ganham de 300 a 500 reais. Você ganha mais que isso. O que você pode dizer da sociedade, que sustenta você de maneira até... justa, talvez?

Veja bem, companheiro, quem sou eu para condenar ou julgar a sociedade? Eu não acho nada da sociedade. Mas se eu tiver de falar alguma coisa da sociedade, teria de dizer que a sociedade é extremamente injusta, complexa, fashion, só pensa na moda, vê alguma coisa assim, gosta e quer consumir. Se não gosta daquilo, a sociedade repele. A sociedade para mim é uma coisa normal. Eu não ligo para ela, no entanto. Eu estou fora dela. Ao mesmo tempo eu preciso dela, pois é ela que me ajuda. Existe uma coisa muito interessante. Nunca aconteceu deu chegar num farol e sair duro. Nunca saí duro. Eu sempre arrumo o meu dinheiro. A sociedade é hipócrita. Hipócrita demais. Mas eu não posso ficar criticando muito, então... viva a sociedade! E viva a sociedade alternativa, como diria Raul Seixas.

Você falou que são 8 anos de rua. Você deve ter visto tanta gente envolvida com narcotráfico, crimes, assassinatos...

Eu já vi muita gente ruim. Já vi muita gente usar drogas. Já vi muitas mortes, já assisti a muitos homicídios. Mas eu nunca entrei nessa. A única coisa que eu fiz foi beber. Beber, beber e beber. Mas eu nunca entrei nessa. Eu daria o meu recado para quem der valor a esta entrevista, eu falo assim: "Oi amigo. Tudo bem com você? Hoje eu dei sorte de ganhar uma moeda? Não? Muito obrigado. Então, que você tenha uma boa noite de descanso e quem sabe amanhã melhore e você pode até me ajudar. Tá bom?"

Agora... droga? O nome já está dizendo: é uma droga. Eu não gosto. Agora... tem uma coisa que me emociona muito. Eu tenho tido essa experiência. Aliás, eu acho que até já tirei diploma de farol porque tem pessoas que dizem não e no dia seguinte elas dão.

Até aconteceu um fato inédito esses dias. Um senhor, dentro de uma BMW preta Z3 conversível parou do outro lado da rua, buzinou, me chamou e disse assim: "Olha, eu vou te dar uma moeda de 1 centavo. Mas não é para gastar tudo isso de uma vez, hein?". Aí eu olhei bem para ele e disse assim: "Meu amigo, olha, coincidência. Eu estou com uma moeda de 1 centavo no bolso faz 2 dias e não consigo gastar essa fortuna. Vamos fazer o seguinte? Eu vou deixar as 2 moedas com você. Quem sabe você sabe o que fazer com elas." Aí ele disse: "Eu sou psiquiatra e psicólogo. E eu só queria medir a sua raiva. Pelo seu bom humor, vai levar 10 reais." Quando ele me deu os 10 reais, eu virei as costas e um cara me apontou um revólver e pediu os meus dez reais. Então veja: aqui se ganha, aqui se perde. Entendeu? Mais ou menos? [risos]. Qual a próxima?

Até você é assaltado?

Com certeza. Eles não poupam nem a gente.

Quantas vezes você já foi assaltado?

Várias vezes.

Você vive sempre nesse esquema de perdas, ganhos, perdas, ganhos. O que é a perda para você?

A perda? Nada. Para mim a perda não significa nada. Eu nunca perdi nada. Eu nunca tive nada. Como eu vou perder? Se eu tiver 10 reais e perder 10 reais não vai fazer a mínima diferença. Eu não perdi nada. Eu vou lá e arrumo de novo. É simples. Perda é muito relativo. É como quando você perde alguém. No caso, para você, poderia valer alguma coisa. Para ela, para o outro, para qualquer pessoa. Para mim não. Eu não gosto de ninguém. Eu não tenho amor por ninguém.

Nesses anos todos você nunca se relacionou com ninguém?

Sim, claro. Como não? Eu tenho 4 filhas, 4 netas e 1 bisneta. Lógico.

Quantos anos você tem?

51.

Não parece.

Mas eu tenho. Quer que eu saque os meus documentos? Tenho, 51.

Você acompanha política, economia...

Com certeza. Todos os dias. Eu navego na Internet, também.

Do que você gosta?

Eu vou assistir ao Roger Waters, o cientista do Pink Floyd [Fernando aponta para uma foto de Waters no jornal]. Eu gosto muito de Rock and Roll. Eu gosto muito de conversar sobre assuntos bons. Eu gosto de mulheres bonitas. Eu gosto de papos agradáveis. E eu gosto de pessoas agradáveis. Tirando isso são poucas coisas que eu gosto. Tirando isso, tem poucas coisas que eu gosto. Mas tem uma coisa que eu gostaria de falar. A gente consegue as coisas quando a gente faz por onde. Quando a gente corre atrás. Muita gente vive dizendo "Graças a Deus", ou "Se Deus quiser". Do céu, eu particularmente, e você também, nunca vi cair nada, né? Então, eu acho que quando a gente vai atrás a gente consegue. Essa é a minha meta, minha sina. Mais alguma pergunta?

Claro. Você fez Comunicação na FAAP. Foi há quanto tempo isso?

Eu fiz 4 anos de Comunicação na FAAP, especialização de Jornalismo. Fiz um ano de pós-graduação na Unitau de Taubaté.

Você é de Taubaté?

Não. Eu sou de Campos de Jordão.

Região do Vale do Paraíba?

É. Mas eu nunca consegui emprego. Nunca consegui exercer minha profissão.

Você se formou em Comunicação já faz bastante tempo, então?

É. Eu estou com 51. Faz vários anos já.

Você está do lado de uma faculdade de jornalismo. Será que isso não tem a ver com o que você estudou? Será que você não quer conversar com os alunos daqui? Com os professores?

Conversar com alunos seria extremamente interessante, mas trabalhar, não. Já perdi aquele pique, aquele clima de trabalhar com jornalismo. Não vai me dar o mesmo dinheiro que eu ganho no farol.

Muito lúcida e interessante essa declaração.

Muito obrigado. É... eu prefiro ser lúcido a ser omisso, entendeu? Eu abomino dois tipos de pessoas: as omissas e as mentirosas. Eu não consigo ter um relacionamento com esses tipos de pessoas. Como eu não consegui exercer a minha profissão, para mim pouco importa. Agora não preciso mais dela mesmo. Então está perfeito, está pela ordem. Hoje eu sou uma pessoa de "pouca idéia".

E você gosta muito de Rock, pelo que eu vejo.

Eu gosto, mas não é só rock. Eu gosto de rock, de blues, de reaggae. Eu gosto de música clássica, Beethoven, Stravinsky. Eu gosto de coisas boas. Gosto de doce, gosto de quindim...

Você pediu as minhas pilhas antigas que eu troquei do meu gravador. Onde você irá usá-las?

É, eu tenho um amigo. O único amigo que eu consegui fazer. É um radinho de pilha bem humilde. Ele tem um fone. Então eu tenho de ter pilhas para poder escutá-lo. E ele é o meu único amigo. E tem também algumas mulheres [risos]. Eu acho que eu sou meio desconfiado. As pessoas se aproximam de mim e eu já acho que elas querem me tirar algo.

Como eu me aproximei de você e quis tirar de você esta entrevista?

Não, você está na sua. Você está fazendo o seu trampo. Você está procurando alguma coisa interessante. Eu espero que esta entrevista seja interessante. Eu sou um morador de rua. Eu sou ninguém. Eu sou um nada. Ao mesmo tempo eu sou tudo. Eu falo quatro línguas além do português...

Quais línguas você fala?

Eu falo francês, inglês e espanhol. O chinês eu consigo ler um pouco. Gosto muito do francês. Gosto um pouquinho só do inglês. Eu tenho uma neurose muito grande com essa língua. É a neurose dos americanos, porque eles têm a mania de se envolver em todos os problemas do planeta, o que eu não acho certo. Eu achei muito bom aquele vazio que existe hoje no World Trade Center. É uma crítica. Está lá no jornal: vão colocar dois fachos de luz azul por 22 dias em homenagem aos mortos. Mas veja bem: quem pode combater o terrorismo? Ninguém. Nunca se sabe onde ou quando vai ser o próximo ataque terrorista. Mas voltando ao assunto: eu gosto muito disso. Eu aprendi a ser uma pessoa muito reservada, embora muito sozinha. Eu acho que a solidão faz isso. Mas... o interessante disso tudo é: você sabe porque eu consigo ganhar 60 reais por dia. Você não sabe, né? Eu vou te contar um segredo.

Antes eu vendia bala, vendia chiclete, vendia caneta. Então eu vendia no farol. Me davam 1 real mas não queriam a bala. Me davam 5 reais mas não queriam o chiclete. Me davam 10 reais, mas não queriam a caneta. Me davam 20 reais e não queriam nada. Então eu parei de comprar a mercadoria. Passei a vender simpatia. "Oi, querido. Tudo bem? Hoje você vai me ajudar com uma moeda? Vai? Muito obrigado. Tenha uma boa semana, muita saúde para você, viu. Tchau. Vai com Deus." Agora aconteceu um fato muito interessante uma vez. Uma senhora me deu 5 reais e eu falei assim: "Querida, Deus abençoe". Aí a senhora me tomou a nota! Então eu disse: "Não. Peraí, querida. Você já tinha me dado a nota. Portanto, a nota já era minha. Você tomou? Não estou entendendo." Então ela disse: "Não fale nesse nome nunca mais para mim." Aí eu falei: "Ah... você não gosta de Deus? Perfeito. Desculpe. Eu falo isso apenas por mera formalidade. Eu também não gosto." [risos]. Mas de brincadeira, entendeu? Aí ela me devolveu os 5 reais. Quer dizer, você nunca sabe quem é que está ali. É uma coisa muito complexa. No farol você tromba com todo tipo de pessoa

Será que ela era satanista?

Não. Eu acho que ela era... como é que é mesmo. Peraí que eu me lembro. É... ela era meio judia, sabe? São judeus entendeu? Ela era judia. Judeus são assim!

Tudo bem. Mas agora chegou a minha vez. Eu quero te fazer algumas perguntas. Por que você escolheu esta profissão?

Para conhecer um pouco da sociedade, estimular políticas de acesso às oportunidades...

Política? Nossa, não brinca. Eu vou lhe confessar uma coisa: eu nunca votei. Nem sei como é a urna antiga, nem a nova urna eletrônica. Eu não conheço, nunca vi. Você sabe que no Brasil o voto é obrigatório, não é? Em muitos países do mundo não é. Mas aqui é. Eu acho que você deveria fazer assim: não vote. Espere passar as eleições. Aí você vai lá no Tribunal e paga uma multa porque você não votou e não justificou. Você sabe quanto custa?

Não.

Não? Eu vou lhe dizer quanto custa. Custa 6 centavos. É bem melhor pagar 6 centavos do que se arrepender por votar numa pessoa e essa pessoa te deixar na maior neurose. Eu já tive de aguentar Luiza Erundina. Estou tendo de aguentar Marta Suplicy, que está acabando com São Paulo. Espero que a candidatura da Roseana Sarney seja impugnada hoje. Vamos ver nos jornais amanhã.

Não, meu. Não é assim. Política é um negócio sério. Cuida dos direitos do povo. Não é uma brincadeira qualquer. Tem crianças, tem jovens, tem adultos, tem adolescentes. A minha esperança é que os jovens de agora, por exemplo, essas crianças que frequentam o McDonalds, que frequentam as bancas de jornais, sejam consequentes. Que sejam absolutamente coerentes. Que façam uma política verdadeira. Uma política saudável. Você sabia que em Praga, há pouco tempo, o ex-presidente foi assassinado em praça pública? Para todo mundo ver? Pode procurar que você vai comprovar. Ele foi assassinado em praça pública. Você sabia que nas Filipinas, a mulher do ex-presidente Marcos era conhecida como a mulher dos 1000 pares de sapato? Quer dizer, as pessoas usam a política para se enriquecer. Não é isso. A política é um instrumento sofisticado para ajudar alguém. Você não tem que ser político para ganhar dinheiro, mas para ser alguém.

Eu me referia ao político pensando em Aristóteles. Quando ele fala que o homem é um animal político...

Conheço bastante Aristóteles. Na verdade ele era o avô. Depois veio o filho e depois o neto. Eu conheço bastante filosofia e psicologia. Você já leu alguma coisa de Marilena Chauí?

Já.

Você sabia que ela entende tudo disso? De filosofia ela é mestre.

Você a conhece?

Eu a conheço. Eu a conheci no Jô Soares [risos]. Eu a conheci numa entrevista sobre livro de receitas. Acredita? Receitas. Ela entende de tudo. Marilena na verdade foi minha professora na FAAP. Ela me disse assim: "Fernando, olha, política não é para qualquer um." Filosofia é muito importante. Mas a melhor filosofia é a das causas e efeitos. Toda ação tem uma reação.

Isso em sânscrito é chamado de "Kharma".

[risos] Compreendeu? Toda causa tem um efeito. Eu acho que se se pensar bem, se descobre que está tudo errado.

É. Parece que falta lógica em tudo o que vemos, não é? Parece que falta o uso perfeito da razão em tantas coisas que nos parecem claras...

Nada é lógico por que? As pessoas não pensam no lógico. Elas pensam nas emoções, ambições, interesses individuais. Como dizia Sartre: "É melhor ser alguém do que ser alguém. Existem pessoas e pes-so-as." É simples isso. Eu não preciso dizer por quê. Eu acho que quem estiver lendo essa entrevista vai entender o que eu estou falando. Tem que existir um pouco mais de respeito, um pouco mais de carisma. Hoje tudo é na base do "tranco", não é? Eu acho que isso não existe. Ainda é fundamental o respeito mútuo. Eu, como eu disse há pouco, vendo simpatia. Ela pode não me dar dinheiro hoje, mas amanhã ela pode me dar. É como o cara da BMW. O cara me deu 1 centavo e disse para eu não gastar tudo de uma vez. O que você acha que eu deveria fazer? Xingar? Era o que ele queria que eu fizesse. Ele estava me testando. Eu respondi à altura. Disse: "Não, querido. Não vou gostar. É um dinheiro ingastável. Vou deixar com você". E ele disse que eu sou uma pessoa de bom humor. É isso.

Você deve ter muitas histórias para contar. Muitas histórias urbanas...

Tenho. Tenho bastante. Mas nenhuma que as pessoas merecessem ouvir. São coisas sujas, inóspitas e eu não gostaria de falar sobre isso.

É terrível pra você?

Não é terrível para mim. Será terrível para as pessoas. Eu prefiro que essa entrevista fique nobre. É uma coisa que eu não gostaria de falar. Coisas pelas quais passei e já estou longe.

Você tinha falado que iria lançar um livro.

Eu já o tenho todo escrito. São 66 capítulos. É uma história extremamente interessante, alucinante. É uma história do pique "Paulo Coelho". Carlos Castañeda. Lobsang Rampa. Você não quer parar mais.

São todos autores místicos.

A história que eu estou contando é mística, mas verdadeira. Nada romântica. Extremamente violenta. É muito sangue, muita coisa chata, muita coisa boa, muita coisa nobre, muita coisa desinteressante. Muito desprezo, acima de tudo. Porque na rua a maioria das coisas são desprezo. Você passa numa BMW e você tem muita grana. Nem olha para a minha cara. Simplesmente vira a cara, faz de conta que eu nem existo e vai embora. Aí foi o budismo que me ajudou a escrever.

Você é budista?

Sim, sou budista há 9 anos [nesse momento Fernando começa a falar algumas palavras em chinês].

Zen Budismo Japonês?

Chinês.

Mahayama? Qual escola?

A escola Chinesa de Nitiren Daishonin (1222-1282). Que foi o homem que propagou o budismo na China. O budismo nasceu na Índia. Começou com Sidarta Gautama, que era o Buda Sakyamuni. Sakyamuni descobriu toda a técnica do Budismo. Ele foi um pouco pessimista e um pouco omissor: ele não ensinou para ninguém. Foi então que chegou o jovem Nitiren Daishonin [Não tem escrita correta em português]. Foi este jovem que propagou o budismo para todo o mundo.

Você vai a templos?

Eu vou aos templos. Eu perdi o meu Sutra de Lótus que é um livrinho com 195 páginas que é resumido em 18 páginas em Chinês. Depois de 9 anos, ainda bem, agora eu estou conseguindo ler chinês. Eu falo as orações do budismo em chinês.

Você aprendeu chinês no templo?

Não. Na cadeia.

Onde?

Na cadeia.

Você esteve preso?

Durante 6 anos e 8 meses.

Por que?

Eu planejei um assalto. Assaltamos uma base de blindados e roubamos 98 carros-fortes. Aí conseguimos a quantia de 1 milhão e 695 mil reais. Estávamos bem, mas um cara entrou em cana e entregou todo mundo. Foi todo mundo para cadeia.

Mas existem mestres budistas na cadeia?

Existiam vários mestres presos na cadeia.

O que é o Sutra de Lótus?

É a bíblia do budismo chinês. Eu preciso comprar novamente o meu sutra de lótus. Eu adoro budismo e adoro filosofia oriental. Eu vivo a filosofia oriental. Eu sou soropositivo há 19 anos e não morri ainda. Não tomo nenhum remédio e não morri ainda. Acho que é pelo budismo. Adquiri o HIV depois dos transplantes que tive de fazer. Fiz exame há três meses e o meu sangue está bom, bem como o meu estado emocional, físico e psicológico.

Você foi atropelado há 32 anos, não é?

Sim.

E foi há 31 anos que você saiu da FAAP?

Sim.

Me conte a sua trajetória de vida.

Minha trajetória foi assim: eu caí de moto, fiquei em cadeira de rodas, virei recordista de pinos e platinas. Tenho 179 platinas e tenho 219 pinos. Todos acima de 20 centímetros. Você mesmo pode ver e comprovar vários.

Você pegou HIV na transfusão?

Peguei na transfusão no Hospital das Clínicas. Muita gente pegou o HIV ali.

Você foi um dos primeiros a contrair o vírus. A AIDS foi constatada em 81, não é?

Não. Foi em 80. Eu fui um dos primeiros do Brasil a contrair o vírus. Inclusive eu estou esperando para receber indenização da Viação Bola Branca, dona do ônibus que me atropelou.

Mas você pode falar desde sua infância?

Ah... um garoto normal que cresceu, estudou, foi atropelado de moto... depois que eu fiz as 4 primeiras cirurgias, e eu fiz 39, eu precisava da minha família para assinar o termo de compromisso para passar a AACD e fazer cirurgias para poder voltar a andar. Eles não tiveram fé em mim. Eles achavam que eu tinha muita sorte por não ter morrido e, por não ter morrido, eu deveria então ficar na minha. Não tinha que voltar a andar. Foi então que rompi com a minha família e fiz todas as cirurgias e todas as colocações de pinos Assinei o termo de compromisso sozinho. Depois descobri que tinha AIDS. Resolvi partir para o assalto. Fui preso, cumpri 6 anos e 8 meses. Me arrependi. Então eu mudei completamente. Hoje, se eu vejo dinheiro caindo do seu bolso eu lhe aviso. Aconteceu tudo isso. Ninguém sabe explicar esse tipo de coisa. Aí eu saí. Estou na rua. Não tenho onde morar, mas pago 25 reais de hotel. Não uso mais drogas, nem nada. Já fumei maconha durante um ano na cadeia, mas não na rua. E, sei lá, hoje em dia na Europa já está legalizado na Holanda, na Islândia, na Suécia... lugares em que eu estive com o meu pai na Europa e vi como funciona. Na época eu tinha aquela coisa com o meu pai. Não vejo o meu pai há muito tempo. Nem quero vê-lo. Sei que é o seguinte: tenho 4 netas lindas, 1 bisneta de 7 meses. Minha neta mais nova mora comigo. Eu levo-a para a creche de manhã e pego-a de noite. Ela tem três aninhos. Comprei um peniquinho para ela mas ela não está usando. Ela gosta de colocar o penico na cabeça [risos]. Ela não quer usar, mas eu vou ensiná-la direitinho. Inclusive, eu vou sair daqui e vou passar na Farmais e comprar uma fralda de 10 reais e 99 centavos [risos]. Ela tem 3 aninhos, tem que ter paciência. Eu me sinto o cara mais feliz do mundo. Não tenho nada para reclamar. Eu sou um cara extremamente feliz. Não tenho nada para reclamar. Sou um cara normal.

Você, como budista, alcançou o nirvana?

Quase. Quase. Quase. Eu procuro. Eu acho que vou encontrá-lo próximo da minha morte. Eu acho que o Nirvana só existe na morte. É a luz, não é? O espaço infinito, a luz...

Sidarta Gautama encontrou o nirvana vivo, não?

Na verdade, Sidarta Gautama é um cara que eu não gosto muito. Teve uma conferência sobre budismo em São Paulo bastante séria. Existe um paulista que vive na Índia, num monastério, e eu disse para ele: "Não acredite em mentiras". Eu falo, com toda a convicção, que Sidarta Gautama mentiu, omitiu, não propagou. Ele preferiu ensinar Nitrin-Dae-Shun-Gui. Após Sidarta Gautama ter desaparecido, Nitrin propagou. O Sutra de Lótus explica toda essa história. Existe um livro chamado Terceira Civilização. Muito bom. Se você ler, ficará impressionado com o otimismo deste livro. Quanto ao Gautama, ele foi um pouco "mentiroso".

Buda, no Dhammapada, fala que o Dharma é o Buda. O Dharma é a ética. Buda acha que o Nirvana vem através da ética. Isso tem muitos significados. Não sei se foi uma mentira...

Não diria mentiroso. Eu diria que ele omitiu os ensinamentos e os transmitiu apenas a Nitrin-Dae-Shun-Guin. Eu achei muito bom. Depois que Nitrin viu que Sakyamuni sumiu, ele propagou.

Fale mais sobre o seu livro. Qual é o tema dele?

Fala sobre a verdade da vida humana. Fala sobre cadeia...

Autobiográfico?

Não. Ele fala sobre os dias das ruas. Eu o fiz a mão e agora já passei para o computador. Ele está pronto para ser editado.

Vai ser editado?

É... a Editora Abril Cultural me prometeu, mas eu costumo não acreditar em ninguém. Eu só consigo confiar depois que eu vejo que é verdade. Veja bem, as pessoas tendem a enganar. Às vezes é uma coisa de família. Hereditário. Mas esse livro conta uma história interessante, dá dicas sobre a vida. Diz que você deve ser rápido, ligeiro. Que você não deve falar tudo, sobretudo para todo mundo. Ele conta as experiências pessoais que eu passei, mas não é autobiográfico. Ele tem a ver com o que eu vi, com o que eu constatei. Mas não conta a minha história. É uma história de rua, de cadeia e depois novamente de rua. Conta o que acontece na cadeia e na rua. Na rua, principalmente a de madrugada. Inclusive está no livro uma descrição sobre o "rapa". Você sabe o que é o "rapa"? Imagine que você, assim como você está, está sem dinheiro para voltar para casa e você resolve dormir na rua. Então você pega um papelão e dorme no chão. Aí vem a Guarda Municipal e leva o papelão e deixa você dormindo no chão. Eles levam as flores que você está vendendo. Só porque você não está cadastrado na prefeitura. E, se bobear, te dão coronhada, te batem. E eu tenho um problema grande com a Guarda Municipal porque ela não é treinada. A Polícia Militar de São Paulo é treinada. Sabe usar arma, sabe abordar as pessoas e tudo o mais. Mas a Guarda Municipal tem policiais não treinados, que mal sabem atirar, só sabem bater. Não têm instrução, não têm superior, não têm colegial, não tem ensino básico, são uns inconsequentes.

Eu tenho tudo isso no livro. É uma história muito interessante. Eu espero que os diretores e editores cumpram com a promessa que me fizeram. Leram o meu livro. Acharam interessante. Fizeram várias perguntas... espero que eles cumpram com aquilo que eles estão me prometendo. Mesmo porque existem várias outras editoras. Sei que deixei na responsabilidade deles e... por enquanto eu estou confiando. Eu costumo não confiar em ninguém. É assim que eu vivo, é assim que eu sei ser. Pela índole deles, acho que pode dar certo. Se não surgir esta oportunidade, sei que o meu livro é interessante e sei que muita gente pode se interessar e ele poderá ser editado. E eu já tenho mais dois livros com outros estilos diferentes.

Você tem uma página na Internet?

É, eu não tenho uma página. Tenho algumas coisas na Internet. Eu troco emails com europeus, egípcios e japoneses. Eu acesso Internet aqui mesmo nesse McDonalds ou no outro Mac. Em qualquer lugar que tenha. Não tenho em casa, mas tenho ao alcance.

Essa aqui é a minha amiga Lílian [é a atendente do McCafé] Ela fez aniversário ontem. De ontem para cá ela fez 18 anos. Já é maior de idade...

Maior é com 21...

Ah é. Maior é com 21. Você ainda não é maior. Mas já pode dirigir e votar. Não vai fazer cagada, por favor [risos].

Bom, eu sou adepto a qualquer tipo de papo, gostaria de falar com pessoas interessantes... mas é assim: sou meio invocado, meio neurótico, sou paranóico. Mas adoro conversar. Gosto de idéias sadias. E... é isso.

Obrigado pela entrevista.

Nada...

Entrevista - Mário Vitor Santos

Aos 45 anos, Mário Vítor Santos, ex-ombudsman da Folha de São Paulo por 3 mandatos, tem feito estudos sobre a imprensa. Professor de História da Comunicação da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, Mário Vítor vem se atualizando em seus estudos e elaborando uma auto-reflexão sobre a imprensa no Brasil. Em entrevista exclusiva ao MadLeo.com.br, deu suas impressões sobre a mídia em geral. A entrevista esta que aqui publicamos na íntegra.

O que você acha da liberdade de imprensa no Brasil?
A liberdade de imprensa foi consagrada nas leis brasileiras a partir da Constituição de 1988 como direito fundamental: o direito à informação. Deve ser assegurada a todos os cidadãos. É uma liberdade fundamental porque é a partir desta liberdade que se pode garantir o funcionamento de uma democracia que seja inclusiva, que abarque camadas amplas da população no debate democrático. No entanto há vários empecilhos que impedem esta liberdade de imprensa de ser exercida. O exercício de liberdade de imprensa está limitado pela necessidade de empreendimentos de grande vulto econômico aos quais nem todos os grupos sociais têm acesso. As vozes presentes na democracia brasileira são vozes que reproduzem o modelo injusto de distribuição de renda. O Brasil é o campeão mundial de desigualdade de renda. Por isso há uma desigualdade na distribuição da informação acarretada. A liberdade de imprensa formal precisa ultrapassar as barreiras econômicas.
Um ombudsman faz pesquisas com a ética jornalista. No Brasil, há pouca pesquisa direcionada à mídia, diferentemente dos Estados Unidos, onde há grandes estudos sobre o assunto.
O que eu acho é que há dois aspectos sobre este tema. O estudo americano sobre a imprensa parece mais um mapeamento das características do exercício da profissão de jornalista como categoria profissional. O jornalismo é encarado como sendo algo negativo. Os americanos estão muito preocupados com a invasão da privacidade, com a difusão de padrões morais que sejam contrários à sua convivência. Eles são receosos com notícias que possam ameaçar a segurança do Estado. Parece que a crítica da mídia nos Estados Unidos também se subordina a estes padrões culturais da sociedade americana. A crítica européia me parece mais interessante, pois tenta analisar o fenômeno da comunicação como um todo. Ela tenta se distanciar deste fenômeno e apontar suas limitações. Parece preparar melhor as pessoas. Mesmo com todo o seu elitismo, consegue criar um leitor mais crítico e distanciado.
Os filmes QUARTO PODER e MERA COINCIDÊNCIA fazem críticas à imprensa americana, da forma como ela manipula os fatos, resolve problemas governamentais, dentro outras coisas. A Imprensa do Brasil já atuou ou atua como o Quarto Poder?
A imprensa brasileira atuou recentemente como o Quarto Poder na cobertura dos eventos que acabaram levando à renúncia do presidente Fernando Collor.
Bem como à sua eleição?
Esta é uma questão interessante. É sabido que alguns veículos da imprensa - especialmente a TV Globo - tiveram participação ativa na veiculação de notícias sobre a candidatura Collor. Houve suspeita de que havia um conluio entre a TV Globo e o candidato Fernando Collor no objetivo de derrotar a então poderosa candidatura Lula à presidência do Brasil. Isto corrobora a minha tese de que há vínculos importantes entre as diversas formas de mídia. Há uma espécie de conexão entre os interesses ideológicos, econômicos e algumas realidades tristes do país. No frigir dos ovos, nós temos visto uma incômoda participação da mídia em alguns eventos eleitorais e em alguns processos políticos. Isto se baseia numa certa falta de credibilidade que noto entre os veículos de comunicação e a população em geral. Um certo comprometimento da imprensa que a população percebe, nem sempre de maneira agradável. A população nota que a missão de um meio de comunicação não está sendo cumprida. Isto é preocupante.
Por que a imprensa acompanha determinados eventos e abandona outros? Isto é colocado pelo interesse do público, é determinado pela existência de notícias, ou isto seria determinado por interesses ocultos, de acordo com o interesse do meio em si?
É preciso que haja uma pesquisa, um trabalho mais sistemático a esse respeito no qual se estabelecesse menos subjetividade. Algum tipo de argumento que provasse se há uma teoria mais acertada, ou se há teorias em conjunto, ou uma combinação entre elas que explicariam melhor o que merece ou não merece destaque na pauta de prioridades da mídia. Quem trabalha com mídia sabe que não é simples esta questão. Há a questão da concorrência, por exemplo. Não se pode esquecer que a concorrência determina. Quando um jornal dá um furo, por exemplo, a tendência dos outros meios é reagir em rebanho e partirem todos à cata da mesma informação. Este é outro fator que precisaria ser isolado e determinado mais adequadamente. Na mídia, alguns fatores determinam as prioridades. Primeiro e fundamental: política. Um fator fundamental é a margem de apoio social que a pessoa enquadrada no noticiário, seja Collor, FHC ou Itamar Franco, tem junto a população. Um presidente forte tende a ser menos investigado que um presidente que apresenta altos índices de desaprovação da opinião pública. Este é um patamar a partir do qual você pode estabelecer muita coisa. Segundo: as irregularidades cometidas pelo poder público em prejuízo da população, seja estatal, seja governamental, tem maior atenção do que as falcatruas cometidas pelo setor privado. Há uma relação umbilical entre os meios de comunicação - que são privados - e a chamada economia privada. Há um compromisso, uma certa timidez na cobertura das irregularidades cometidas por empresas privadas, o que não ocorre quando essas irregularidades são cometidas pelo poder público. É necessário lembrar que, mesmo quando falcatruas são cometidas pela economia privada, prejudicam a população em geral. As questões envolvendo falsificação de pílulas, por exemplo. Por mais que recebam cobertura, recebem menos atenção do que um escândalo em torno de uma Petrobrás, ou do governo FHC. A imprensa sente-se muito mais à vontade para trabalhar com irregularidades no setor público do que aquelas que possam ferir os sentimentos de empresários, potenciais anunciantes, colegas de comando de setores econômicos. Inclusive quando há uma união entre poderosos empresários do setor privado e o Estado em algum tipo de falcatrua, a investigação dos aspectos relativos ao Estado avançam muito mais. Há uma cobrança muito maior da imprensa e dos meios de comunicação em relação aos compromissos do Estado do que em relação às más intenções por parte das empresas privadas. Eu julgo que há um corpo único na união entre empresários privados interessados em obter vantagens a partir de irregularidades cometidas pelo Estado, pelos funcionários públicos e pelas estatais. Especialmente quando isso envolve grandes anunciantes, como na CPI dos precatórios [que envolveu o poderoso Banco Bradesco S. A.]. A imprensa protege os corruptores, que em geral são inocentados. Isto explica por que os processos afinal nunca vão adiante.
A imprensa critica a imprensa? Por que há um medo dos meios de se criticarem diretamente? A Folha busca a autocrítica com o Ombudsman, mas como os outros meios da imprensa se criticam?
Será que haverá qualquer tipo de punição aos meios de imprensa? Ou aos eventuais erros que a imprensa possa cometer? A expectativa que temos é que haja alguma ação paulatina dos sistemas. Que haja cada vez mais agentes conscientes que possam estabelecer uma cultura alternativa. Que divulguem uma abordagem mais crítica em relação ao papel dos meios de comunicação. Os compromissos de comunicação pública têm expressão, têm um compromisso com o público. Este compromisso tem de ser cobrado. É preciso que haja algum tipo de consciência coletiva a partir da qual se estabeleça alguns valores os quais os meios de comunicação terão de respeitar sob pena de serem rejeitados e perderem posições junto ao público. A punição ou a cobrança parece-me cada vez mais uma atitude de estruturas isoladas. Isto tem a ver também com o momento em que vivemos. A própria globalização parece ter influenciado muito na maneira como as pessoas se relacionam com a mídia, criando um ambiente de muita complexidade e dificuldade.
A imprensa brasileira e os brasileiros não têm memória?
Por um lado, é possível dizer que o brasileiro não tem memória, não tem preocupação com a história. Embora eu tenha alunos jovens, recém-chegados à faculdade que não têm memória, mas que estão estudando pra se apoderar desta bagagem fundamental para o desenvolvimento de suas carreiras.
Eles não deveriam trazer um pouco desta bagagem às faculdades?
Seria bom que tivessem. Se não vêm com esta bagagem não quer dizer que os alunos não venham a ter memória. O que é criticado é que não haja interesse em ter memória. A memória estabelece parâmetros de comparação. Estabelece possíveis linhas de coerência. Estabelece ainda linhas de compromisso dos meios de comunicação com determinada abordagem diante da história e da cultura do país. Atualmente existe um vasto interesse sobre o assunto. Jamais houve na História do país um interesse tão intenso pela História da Comunicação. Basta identificar as enormes tiragens de alguns livros que abordam especificamente algumas personalidades da História dos meios de comunicação deste país, como Assis Chateaubriand, Nelson Rodrigues, Mário Filho. São livros que tratam tanto de processos antigos, como do histórico contemporâneo do jornalismo. A tiragem de Notícias do Planalto foi astronômica. Assim como a de Chatô, Rei do Brasil, Anjo Pornográfico... há um interesse grande, eu acho, por um certo contato com o passado. Talvez mais interesse em torno de pessoas da imprensa, de algumas personalidades. Vale a pena pensar se o interesse pelas pessoas do passado não acaba determinando o que elas fizeram e o que elas representaram no processo histórico do Brasil.
Como foi criticar um jornal? Difícil?
Todos os que passam por lá sabem que não é fácil. Incomoda interesses estabelecidos, incomoda vaidades, pode incomodar o dono jornal...
Já pensaram em acabar com a coluna do ombudsman?
Certamente já chegaram a cogitar essa hipótese em algumas ocasiões. O que é previsível, porque não há nenhuma pessoa que tenha uma coluna dessas em seu jornal funcionando de maneira independente que não queira eliminar este foco de incômodos. Apesar de tudo a coluna é mantida. Parece que além de qualquer interesse de marketing, o ombudsman tem se destacado modestamente. De forma limitada tem contribuído na criação de um espaço de crítica à mídia a partir da própria mídia. O que eu acho que tem o seu papel, embora não seja a melhor maneira de fazê-lo. Apesar disso tudo acredito que este cargo tem de ser cultuado em outros veículos como demonstração de adesão aos princípios de transparência que, em geral, eles exigem dos outros setores da sociedade.
Qual o tipo de personalidade que um ombudsman tem que ter?
Um ombudsman tem que ter coragem, independência, sinceridade, desprendimento e emoção para colocar um anúncio às dificuldades que trazem algum tipo de justiça e veracidade e paixão pela verdade que deve nortear o jornalismo. Evidentemente esta é uma definição romântica da qual eu, ainda, bem ou mal, não consegui me libertar.
Qual foi o caso mais engraçado que já aconteceu com você?
O caso mais engraçado que eu tive foi de um rapaz que veio estudar em São Paulo. Este rapaz foi entrevistado pela Folha para uma reportagem que tratava de consumo de drogas. Segundo ele mesmo, não houve gravação. Um repórter da Folha perguntou a ele se gostava de maconha, se fumava maconha. Ele disse que nunca tinha fumado, mas tinha ouvido dizer que a maconha fazia bem, que relaxava. Quando ele viu suas declarações publicadas, o titulo que encimava a matéria chamava-o de "defensor radical da maconha". O pai, do interior, leu a edição do jornal, viu o nome do filho publicado e ligou imediatamente para o filho cobrando-o: "Vem cá, você acha que eu estou pagando os seus estudos em São Paulo para você ficar fumando maconha? E não só ficar fumando como sair declarando que fuma, gosta e espera que os outros fumem também?" O meu trabalho foi de conseguir o desmentido da Folha e que a vida do rapaz voltasse ao normal.

Missão sorvete de chocolate

Recebi um pacote em casa outro dia. Tinha uma bomba. Não dessas bombas com relógio, mas uma bomba atômica. No pacote um bilhete: "Envie uma foto com as cores vermelho, preto e azul para a caixa postal 666 ou essa bomba irá explodir".

Chamei o esquadrão anti-bombas. Eles disseram que nada poderiam fazer, afinal não haviam sido treinados para lidar com bombas nucleares. Resolvi avisar os militares. Eles verificaram o artefato e notaram que ele estava conectado a uma rede sem fio. Qualquer desconexão da rede resultaria em sua explosão.

No entanto não conseguiram compreender porque uma simples foto com essas cores poderiam evitar a detonação. Logo lembrei-me que havia uma quadra de basquete pintada com essas cores. Tirei uma foto do detalhe. Revelei e enviei para a caixa postal. O artefato acabou sendo desativado remotamente.

Em posse do artefato, percebi que tinha em mãos um instrumento poderoso. Os militares logo quiseram pegá-lo para si, mas eu fugi com ele para um ermo lugar do oriente. Lá aprendi a fazer bombas controladas por controle remoto, sem nunca mostrá-lo a ninguém. Um belo dia preparei um sistema similar ao que recebi em casa e enviei-o diretamente para um presidente de um país com intenções imperialistas.

Junto com o pacote, enviei o seguinte bilhete:

- Desista de dominar o mundo. Para isso, no seu próximo discurso na TV, diga que adora sorvete de chocolate e essa ogiva não explodirá.

Uma semana depois eu o vi na TV. Ele dizia:

- Ao meu povo querido. Venho aqui dizer-lhes que a nossa nação sofreu uma ameaça terrível. Mas não se preocupem, pois já encontramos a solução para esta ameaça. Vocês sabem por quê? É porque eu adoro sorvete de chocolate e quem gosta de sorvete de chocolate nunca poderá deixar o seu povo sofrer qualquer tipo de ameaça. E é por isso mesmo que estamos deixando de investir bilhões e bilhões em armas e armamentos para começarmos a investir na prosperidade deste mundo. Muito obrigado.

Após a sua saída, diversos jornalistas afoitos foram perguntar-lhe se ele não poderia gostar de sorvetes de frutas, que eram mais saudáveis. Ou se poderia abandonar o sorvete, já que o mundo fazia forte pressão pela redução do consumo de carboidratos. Mas ninguém, absolutamente ninguém, lembrou-se de perguntar qual era a ameaça. O plano deu certo.

O amigo secreto

Era o fim de ano e Renato tinha dado a idéia de fazer um amigo secreto. Com isso tinha a idéia de aumentar o coleguismo e a aproximação das pessoas no ambiente de trabalho. Isso ou qualquer outra coisa que ensinam nesses manuais de motivação.
Renato era o inventor da brincadeira, mas não sabia o que fazer quando descobriu que tirou uma pessoa completamente desconhecida: Mariana. Ela era tesoureira, tinha cara de bibliotecária e só vinha trabalhar com roupa social. Era bonita, não fosse séria o tempo todo. Tinha sempre a cara amarrada.
Era difícil imaginar que ela sorriria quando recebesse o presente de quem quer que fosse. Era da sua natureza ser isolada. Ia para casa e para o trabalho sozinha, e também nunca almoçava com ninguém. Salvo raras vezes em que ela almoçava com a Luciana, estagiária dela.
"Ela deve ter um gosto sofisticado", pensou ele. Esperou pela lista de sugestões de presentes, já imaginando que seria algo caro. Surpreendeu-se ao encontrar o seguinte na sugestão de Mariana: "Quero algo que me faça rir. Se eu rir do seu presente, você, meu amigo secreto, terá dado o presente certo".
Renato sempre teve vocação de gozador, era um especialista em fazer as pessoas rir. No entanto nunca conseguia fazer Mariana rir. Falava pouco com ela, é verdade. Mas toda graça que ele fazia na frente dela resultava numa risadinha irônica do tipo "estou infeliz".
Mas ele achou um presente engraçado para Mariana. No dia do Amigo Secreto, logo após descobrir que a sua chefe havia lhe tirado, ele anunciou quem era a sua amiga secreta. Suspense na hora dela abrir o presente.
- Oscar Wilde! Obrigada! Você me fez rir!
- De nada. Imaginei que você gostasse dele pela sua risadinha irônica. Imaginei que tivesse algo de Wilde no seu jeito.
- Nossa, acertou. Me convida pra sair hoje?
Renato não entende a pergunta.
- Por que?
- Porque eu quero que você me faça rir, e não o seu presente.
Renato não estava acostumado a receber cantadas. Ficou envermelhado como um tomate após a resposta assertiva de Mariana. Inerte ele respondeu:
- Tá.
E desde aquele dia não houve mais segredo entre eles.

Novus Ordo Seclorum

- Eu preciso de um financiamento.
Eu olho para ele, o Gigante. Ele parece ter tudo à disposição e os argumentos mais eficazes. Brigar contra ele exigia bem mais que o estilingue de Davi. Golias era ridículo perto dele.
- Quem é você, amigo?
- Eu? Meu nome é Brasil.
João Brasil, eu disse. Eu queria dizer que era meio atrapalhado, mas não podia. Isso é o que não se pode dizer diante de quem financia. E eu tinha dívida para rolar, eu só queria trocar uma dívida por outra, com juros menores. Gigante até que era bondoso, ele tinha o menor juro do meu pobre universo conhecido.
- Meu amigo, você sabe quem sou eu?
Eu tive dúvidas sobre quem ele era. Eu sabia que ele era o Gigante, que tinha juros mais baixos e tudo o mais. Tive medo da pergunta.
- Você é o Gigante, certo?
- Eu briguei com a minha mãe faz um tempo e resolvi dominar o mundo. Aprendi com ela aliás, a ser um líder nos meus negócios, sabe por que?
- Por que?
- Porque eu sou livre e tenho a força, meu amigo.
Ele olhou para mim com uma metralhadora na mão. Estava escondida debaixo da mesa. Tomei um susto enorme.
- É só para os meus inimigos. Acalme-se.
- Ah, bom...
- Mas você quer ser meu inimigo?
- Eu? Eu não!
- Você tem certeza que não?
- Absolutamente! Nunca seria teu inimigo! Que é isso, eu preciso rolar uma dívida, preciso da sua ajuda, onde já se viu tamanha pressão. Me ensina como eu devo proceder...
- Seguinte... mantenha a sua família com diferenças enormes de renda. Dê sempre tudo de bom e de melhor para o seu filho e nada para a sua esposa, pode ser?
- Mas por que?
- Se você fizer isso, meu amigo... eu te empresto bastante dinheiro e com um juros bem tranquilo. Tão tranquilo que você vai me pagar só os juros.
- Ah... tudo bem!
E assim vamos até hoje.

Não seja estúpido, quadrúpede!

Estranho que seja, veja, a árvore é viva. Se fosse morta, não teria função. A dela é fornecer oxigênio, pense bem. Se ela morre, nós morremos também.

Então não faça avenidas tão gigantes, nem viadutos tão enormes como os desta cidade. Façam-se florestas por todos os lados para que possamos respirar. Se você se incomoda com o excesso de avenidas e carros, proteste! Afinal você é um quadrúpede que adora caminhar e ruminar. Faça algo.

Não fique nessa desfaçatez. Tenha orgulho de si e saiba responder quando é insultado. Tenha certeza de que não irão inverter a sua visão, terra virar céu, céu virar terra. Domine as certezas, já que hoje em dia disparam em postos policiais sem certeza de nada.

No Oriente o terror envolve suicídio. No Ocidente, atentados homicidas e calculistas. O suicídio envolve uma forte carga emocional que só o pressuposto religioso poderia supor. Agora o homicídio qualificado, explosivo, com a intenção de provocar escândalo em nome de uma idéia qualquer é característica típica de nós ocidentais.

Aqui temos de preceito noções religiosas de passado dominador através de guerras. Não por acaso os protestantes anglo-saxões agora querem estender o seu braço para a dominação do mundo. Irão lutar contra todos os lugares onde não houver democracia estabelecida.

Recomponha-se, quadrúpede. Sim essa conversa é com você. Você está fazendo alguma coisa para lutar contra a dominação humana do planeta? Não? Então você está condenado à extinção ou ao seu plantio em fazendas.

Não se engane. Para você ter uma idéia, lançaram o terceiro filme da série que fala que a realidade é um programa de computador. Sim, Matrix Revolutions nas telinhas e você, vaca que vai para o abate, já sabe o que vai acontecer com as suas carnes? Elas serão devidamente cortadas para servir humanos famintos para assá-las em suas churrasqueiras nos condomínios e casas e ruas de todo o Brasil.

Sim, você repousa alegremente no pasto, acreditando ter comida e água à vontade. Acha que essa realidade é perfeita, até encontrar-se no matadouro. Seja esperta e fuja. Lute. Domine o planeta antes que os humanos acabem com ele.

E parece que não vai demorar muito. A água é uma das coisas de que logo mais vamos sentir falta. Depois será a comida, racionada. Aí teremos guerras enormes para ver quem tem o domínio da água potável. Você quer que isso acontece, quadrúpede?

Levante-se! Não se deixe dominar pela morosidade dos dias. Saiba que o pasto que você come hoje dentro do seu cercado amanhã poderá faltar. Não fique pensando que é tudo perfeito só porque você tem tudo. Amanhã será a sua vez de morrer nas mãos de onívoros selvagens do topo da cadeia alimentar, a não ser, é claro, que você faça alguma coisa.

Sendo você mesmo

Mário era uma pessoa diferente. Muito raramente falava a verdade. Mentia sempre que possível para poder se divertir com as pessoas.
- Mário! Tudo bom? Como você está?
- Péssimo, estou com dor no fígado.
Para tornar ainda melhor a sua condição, Mário fazia o rosto e os olhos ficarem amarelos.
- Nossa, mas o que você tem?
- Não sei. Estou achando que é hepatite. Viral, daquelas que passa pelo ar, sabe?
E tossia.
- Mas Mário... vai pra casa! Pelo amor de Deus, você vai contaminar todo mundo!
Nesse momento Mário ria. Muito alto.
- Vou nada.
E fazia sua pele voltar à cor normal.
***
Não raro Mário se fazia passar por outras pessoas. No trabalho, o telefone de sua colega de trabalho sempre tocava quando ela não estava lá. Mário sempre atendia imitando com perfeição a voz de Mariana.
- Alô.
- Oi, Mariana... meu amor. Tudo bom?
- Tudo bem. Quem está falando?
- Como assim quem está falando? É o amor da sua vida.
- Não tenho amores na minha vida.
- Como não? E o que fizemos ontem? Não tivemos uma noite de amor?
- Amor nada. Foi uma noite de foda. Como qualquer outra.
- Você não pode estar falando sério, Mariana. Estamos de casamento marcado!
- É bom você saber que só vou casar com você porque eu te odeio.
- Como assim?
- Ódio, meu querido, é uma forma de amor. Até mais!
E desligava na cara do noivo.
***
Difícil, para Mário, era ser ele mesmo. Isso acontecia quando ele ia fazer compras. Dessa vez ele tinha ido num supermercado.
- Noventa e dois reais e trinta e seis centavos. Qual é a forma de pagamento, senhor?
- Teletransporte.
- Como, senhor?
- Vale-transporte.
- Senhor, não aceitamos vale-transporte.
- Ah não?
- Senhor, o senhor já falou isso da outra vez que veio aqui.
- Ah é? Lembre-me disso na próxima vez. Noventa e dois reais e trinta e oito centavos?
- Não, senhor. Noventa e dois reais e trinta e seis centavos.
Ele preenchia o cheque bem devagar, com uma ótima caligrafia.
- Aí está. Noventa e dois reais e trinta e cinco centavos.
- Mas senhor... eram trinta e seis centavos.
- Eu quis dar dois a mais e você reclamou. Achei melhor dar um a menos e você também reclama?
- Senhor, não tem problema.
- OK, minha senhora, muito obrigado.
***
Outra situação em que Mário tinha de ser ele mesmo é quando ele estava com uma mulher. Nesses momentos era estritamente necessário responder tudo com sinceridade.
- E aí, Mário... você é um homem interessante. O que você faz exatamente?
- Eu? Eu sou gerente financeiro de uma grande financiadora.
- Ah é? Parece interessante.
- E é. Adoro o meu emprego.
- E o que você faz, senhor gerente financeiro?
Ela falava e sorria.
- Nada. Nada o dia todo. Apenas sento na minha cadeira e observo os gráficos no computador. Se eles caem, eu grito com os funcionários mais novos com o intuito de ameaçar os mais antigos. Se eles sobem, faço uma reunião e elogio a minha equipe. E assim é.
- Tão simples.
- Bastante.
- Você não está falando a verdade.
- Para te falar a verdade, estou te falando toda a verdade. O meu trabalho consiste nessa rotina. Fico sentado o dia todo e, para fugir da rotina, prego peças nos meus amigos, colegas e familiares.
- Como assim?
- Eu sou muito brincalhão, sabe? Faço muita piada com todo mundo. Tenho amigos que dizem que eu deveria mesmo era ser ator.
- Ator?
- É, ator.
Ela o admirava. Ele parecia ficar cada vez mais bonito. Ela olha para o copo de vinho e pensa sobre o quanto aquilo poderia estar interferindo em seu julgamento.
- E você, o que faz?
Ela enrubesce.
- Sou secretária da diretoria de uma grande empresa multinacional.
- Isso parece ser bom.
- E é. Sinto-me realizada.
- Ah, é? Por que?
- Porque é o trabalho que sempre quis. Adoro organizar as coisas, as agendas... sou virginiana, sabe?
Mário não gostava daquele papo místico.
- Ah, é? Eu sou taurino. Já venho com os chifres.
- Como assim?
- No caso de você querer colocá-los em mim... não precisa. Já estão aqui.
- Ai... você é meio bobo mesmo, não? Por que eu faria isso?
- Bem, eu não quero tirar a sua virgindade. Acho bom você fazer isso com outro.
Ela não entendeu nada.
- Essa sua piada é muito sem graça.
- Você merece.
- Como assim?
- Não gostei de você. Você é sem graça.
- Estou vendo.
- Vou embora.
E Mário foi para casa.
***
Dois dias depois ela liga para ele.
- Eu... eu queria te perguntar. Você me achou mesmo sem graça?
- Claro. Você mal sabia segurar na taça de vinho. Quando o garçom coloca um pouco de vinho na taça, ele quer que você a experimente para depois colocar mais. Não é para você pedir mais como se estivesse numa festa.
- Desculpe.
- E eu odeio mulheres que pedem desculpas.
- Desculpe.
Mário desligou na cara dela.
***
Mais tarde ela liga de novo.
- Você é muito mal educado.
Mário começa a imitar a colega de trabalho.
- Quem é?
- É... eu queria falar com o Mário?
- Quem é?
- Joana?
- Joana? Que Joana?
- É uma amiga dele.
- Amiga? Sei...
- Quem é?
- Aqui é a esposa dele!
- Esposa? Ele nunca me falou que era casado!
- Mas é, sim, sua cretina. E vê se pára de ligar para ele que ele está doente.
- Doente?
- É. Ele está com hepatite. Escuta aqui, sua piranha, não foi você que passou hepatite para ele, foi?
Joana não aguentou. E desligou na cara de Mário.
***
Meses mais tarde eles se encontram numa festa de amigos em comum. Ela está linda, num vestido bem curto e preto. Mário adorou. Ele se aproxima.
- Você está muito bonita.
- Obrigada. Mas você não está interessado.
- Eu sempre estive interessado.
- Engraçado... cadê a sua aliança?
- Que aliança?
- Você não é casado?
- Nunca fui casado!
- Mas... e a sua esposa? Que atendeu a minha ligação?
Mário sorriu.
- Ela falava desse jeito? - perguntou imitando a voz da mulher.
- É! Exatamente. Era você?
- Claro.
- E você estava com hepatite?
- Não. Mas você, aquele dia, estava me dando dor no fígado.
- Ai, credo. Como você é exagerado.
Mário sorriu.
- Escuta, Joana, cê não quer subir pelas paredes hoje?
- Como assim?
- Subir pelas paredes... ficar cheia de amor para dar, entendeu?
- Entendi...
- Vamos para algum lugar?
- Para onde?
- Qualquer lugar. Você faz questão que seja em algum lugar específico?
- Para falar a verdade, não.
- Então vamos para o banheiro.
Quinze minutos de amor depois, ela sai cambaleante e ele sai todo suado do banheiro. Ninguém vê nada.
- Acho que tirei a sua virgindade.
- E acho que peguei a sua hepatite.
- Estamos quites?
- Sim.
***
Depois daquela noite de amor, Mário casou-se com Joana e nunca mais deixou de ser quem ele mais admirava: ele mesmo.

O dinheiro toma decisões

Eu sou liberal, é verdade. Gosto da liberdade. Venho de um lugar onde o povo é livre. O povo, você sabe, gosta de se aglomerar. Seja em torno dos rios, seja sob a batuta do faraó, seja em determinadas fazendas. Alguns preferem as fábricas, outros, as metrópoles. Por fim, temos as empresas, a organização social mais livre que poderia existir. O critério é o da seleção natural: o vencedor, permanece. O mais fraco, cai. O que importa, nesse engenho, é o dinheiro.

Tem sempre aquele que diz que o dinheiro não importa. Há o que determina que o que realmente importa é o amor. Nada disso é verdade. O que importa é liberdade. Mas veja, falamos aqui não da igualdade. Liberdade busca alguma igualdade através da fraternidade. São as três cores da bandeira americana, mas a cor que está mais presente, é claro, é a da liberdade: a branca.

Como a minha liberdade exige mais espaço que a sua, isto é, como ela exige mais de mim do que de você, ela é maior do que a sua. Eu não poderia aceitar que a sua liberdade fosse igual à minha. Eu não quero andar por onde você anda. Eu não quero viver onde você vive. Eu não quero ser igual a você. Eu sou superior, um ser superior, enriquecido em proteínas, em cálcio, em ferro e em gorduras saturadas. Saiba muito bem: estou determinado a viver sendo livre e desigual como estou.

Minha busca pela igualdade, como dito, resumiu-se à fraternidade. Sou enlouquecido por crianças e já cheguei a abrir uma empresa de filantropia, em que contratava pessoas portadoras de deficiência e fechava contratos de trabalho temporário nas empresas, tudo para que eu ganhasse mais dinheiro e os pobres, é claro, também.

É inegável: quanto mais gente tiver dinheiro, mais eles vão gastar e mais eu vou ganhar. Este é o jogo.

O jogo, vocês perceberam, não passa de uma competição. Não por acaso, a teoria dos jogos têm revolucionado os estudos econômicos na área da matemática. Proposta pela primeira vez pelo matemático genial e esquizofrênico John Nash, ela vem sendo estudada para compreender o comportamento do mercado. O mercado, meus amigos, é um jogo, e um jogo é trabalhado com probabilidades. Se há cinco produtos e eu escolho um e não o outro, deve haver alguma coisa errada. Certamente o dono de uma fábrica deverá perceber que sua marca tem algum problema e tentará melhorar o seu produto. Se ele consegue e vende mais, ele vence o jogo.

As estratégias são um jogo de xadrez. Imagine um enorme tabuleiro em que cada peça tem a sua função. Existem os peões, as torres, os bispos, os cavalos, o rei e a rainha. Eles determinam o destino do presente e, desta forma, homenageiam um futuro. Por terem liberdade, são capazes de criar estratégias de vida dinâmicas e complicadas, o que permite que cada um sinta a experiência de viver. É o que importa. Viver é sofrer e sorrir. A idéia da experiência de vida é feliz. Portanto, se como idéia ela é assim necessária, é assim que ela deve se fazer.

Assim, as peças mexem-se de acordo com o jogo. Elas optam por diferentes caminhos, sempre sendo propostos de maneira livre, com cada grande competidor de um lado, jogando a bola para outro.

A teoria dos jogos tenta desvendar e ordenar o jogo, de forma a prever melhor os seus resultados e tomar medidas - intervencionistas, quando necessário - para que não acabe tudo na lama. E também para que as pessoas fiquem felizes. Um indivíduo que não consegue consumir o que a sua sociedade lhe oferece, não pode ser feliz. Certamente ficará triste quando perceber que não consegue fazer nada, a não ser comer, beber, sair, voltar e dormir.

Pense no comunismo. Os comunistas basearam-se em experiências desastrosas de controle social. Veja em Cuba o que aconteceu: Fidel controla a vida de todos os seus cidadãos. Ele sabe o que cada um come, o que cada um veste e o que cada um precisa para sobreviver.

Ele fornece, a cada qual, o ideal para que se sobreviva e então diz a eles: vivam. O que eles poderão fazer se não têm o que fazer? Nada. Com o pouco que possuem, acabarão gastando em copos de rum, sem direito a coca-cola.

Sou da linha do império anglo-saxônico, não sei se você percebeu. De certa forma, a Era Vitoriana trouxe ao mundo essa idéia de liberdade, desde que ela pudesse continuar rica e poderosa, controlando o poder militar e podendo matar qualquer um que aparecesse em seu caminho.

Entrar numa guerra hoje contra os britânicos e os americanos significaria a morte para qualquer um que se atreva. Não se pode brincar com os impérios, porque eles sabem reagir. Sobretudo se são poderosos e sadios. E eu acredito que a linha do império é a melhor a se seguir no momento.

Veja você o que aconteceu no Brasil. Aqui, privatizamos as empresas estatais. Ganhamos mais competitividade. Nas estatais, todo o processo de decisão era muito moroso. Eles não jogavam direito, tinham idéias socialistas e não queriam ganhar cada vez mais dinheiro. O lucro não estava implementado no cérebro deles como forma de evolução. Depois de privatizados, bancos passaram a produzir melhor, a adquirir mais contas, a melhorar o atendimento, enfim, a fazer um serviço bom e de qualidade.

Há exemplos de empreendedores nacionais e geniais. É o caso de alguns bancos, que investiram pesado em tecnologia e hoje contam com menos caixas e mais caixas automáticos. Em nome da eficiência e do aumento do lucro, um liberal vai atrás do que lhe dá mais dinheiro.

Não gosto de censuras, nem de cortes no que quero fazer e aposto numa sociedade anarco-capitalista. Sou uma pessoa ultraliberal, que acredita que as corporações devem gerir sobre determinados grupos de pessoas de um certo local. Este grupo só teria um único vínculo com a indústria: o seu salário. Com ele, poderia sobreviver comprando as coisas dos outros e isto seria suficiente. Não há necessidade de governo, de impostos, de incentivos, de administração central, de burocracia, de tecnocracia, nada disso. Os líderes serão os homens que têm condição de aumentar os lucros, e os liderados serão os homens comuns.

Os líderes serão obstinados naquilo que fazem e farão de tudo para deixar a sociedade como está. Se quisermos melhorá-la, vamos juntar empresários em ONGs e, desta forma, promover melhorias nos sistemas. A idéia é sermos livres. De certa forma parecido com o que previu Huxley, mas aqui não teremos aquela baboseira de hipnose. Aquilo, como hoje se sabe, não funciona.

O povo gosta mesmo é de argumentos. Por isso, nós liberais, sempre vamos vencer em tudo o que fizermos. Sempre estaremos ao lado dos governos para influenciá-los e deixá-los de lado. Já vivemos numa espécie de anarco-capitalismo, vocês não notaram? Pois é. Quem você acha que toma as decisões? O Senado?

Nelson Rodrigues psicografado

Amigos, somos os maiores humanos do planeta Terra pela quinta vez. Quer dizer, eu me arriscaria a dizer que já fomos os maiores do mundo mesmo sem sê-los. Basta rever a seleção de 86, por exemplo. Alguns apressados já se adiantarão a dizer que eu mal conseguia ver os jogos vivos, quanto mais morto. Mas eu vi que o escrete de 94 fez muito sucesso com aquele jogo rebuscado e chato, conforme os críticos disseram na época. Eu confesso que me mexi no túmulo e pensei, na ocasião, em escrever alguma coisa para escrachar os mal-vencedores que são os brasileiros. Felizmente não estava com tanta vontade assim de escrever. Sabe como é: no céu o homem se apodrece de preguiça.
Pois é: aqui no céu tudo é bonito, mas a Terra ficou muito mais linda com a vitória da seleção. Impressionante essa copa. É claro que há aqueles que dirão que o sorteio ajudou, que pegar a Turquia duas vezes é marmelada. Mas eu acho que essas pessoas não têm o que dizer, afinal o Brasil foi superior à Aquiles. Explico: Aquiles era um desses mitos gregos cuja particularidade era ter um tornozelo fraco. O Brasil tinha um tornozelo, um joelho e uma defesa fraquíssima e, ainda assim, venceu.
Confesso, no entanto, que o tal Scolari me surpreendeu. Ele tem a personalidade forte dos gaúchos, desses que mandam os jogadores bater para não apanhar. Admiro muito o jogo forte dos argentinos e dos uruguaios, como já me cansei de dizer aqui para vocês. Mas nesta seleção Scolari botou o time para frente. Colocou Roberto Carlos, o rei da Coxa, e Cafu, o corredor de 100 metros rasos, para frente. Descobriu completamente a defesa e botou o time para atacar. O problema é que com esse esquema a seleção sofreu muita pressão, especialmente no contra-ataque. O time só se acertou com a entrada de Kléberson para ajudar na marcação. Ainda assim, amigos, atacávamos com 7 e defendíamos com 4. A situação realmente estava difícil.
Mas ganhamos, é o que importa. Ataque mais positivo, artilheiro brasileiro e vice-artilheiro também. Agora... esse tal de Ronaldinho foi uma surpresa. Ate São Pedro, aqui do meu lado, resolveu abandonar as tempestades que jogaria sobre o Japão para vê-lo jogar. É impressionante. Fez gol de bico, dando pique, driblando. Fora os gols de que foi co-autor.
Rivaldo, este sim me surpreendeu. De fato jogava melhor entre os espanhóis do que entre seus patrícios. Eu mesmo me irritava em vê-lo na seleção e já pensava em colocar o Ricardinho em sua posição. No entanto ele me surpreendeu com a vice-artilharia. Para mim foi o jogador da copa. Aquela deixada de bola para Ronaldo marcar em cima do tal "Muro de Berlim", ou ainda, "Gengis Khan" alemão foi um lance de gênio. Digno de uma placa.
O gol do Edmílson ainda na primeira fase foi outro primor. Fez Deus ficar arrepiado aqui do meu lado enquanto assistíamos à partida. Ele disse que não esperava, mas em se tratando de Deus, melhor não acreditar. Aliás, parece que ninguém acreditava que o Brasil seria campeão. Deus, brasileiro que é, ria da cara de vocês aí embaixo, com esse eterno complexo de vira-latas que só é derrotado com a vitória da brasileirice diante da eficácia alemã. Ganhamos fácil. E dos ingleses? Foi mais difícil, mas o tal do David Beckham acabou "going Backhome". Somos melhores do que eles, pode acreditar.
Agora eu vou continuar aqui no meu sono eterno. Não pretendo me manifestar por enquanto. Só quando vocês aí embaixo me acordarem para uma nova festa em 2006. Vejam vocês que 6 e Hexa referem-se à mesma coisa. Não vai ter para ninguém, pode ter certeza.

A Estrela Solitária

Garrincha era descendente dos índios fulniô. A tribo fulniô acreditava que era necessário matar e comer os primogênitos de cada família para evitar futuros desastres.
Este jogador brasileiro, conhecido pela sua facilidade em driblar os adversários, tem sua história contada neste emocionante livro escrito por Ruy Castro. Em suas 536 páginas é possível conhecer toda a história de Garrincha, dos seus antepassados fulniôs, de seu pai, de sua casa na cidade de Pau Grande, de seu sucesso com as mulheres dentre outras coisas.
Mas e o futebol? Seria o futebol uma peça secundária nesta obra? Não, muito pelo contrário. Estrela Solitária - título dado em alusão à solidão de Garrincha em seu próprio brilho e ao seu time, o Botafogo - é uma biografia jornalística sentimental. Sentimental porque é notável que Ruy Castro sentira-se entuasiasmado ao falar de Garrincha. Cada jogada excepcional narrada por Castro neste livro parecia ter toques de euforia. Ruy Castro também é Garrincha.
Para entender o que levava torcedores de outros times a assistir os jogos de Garrincha, é preciso saber que até hoje não houve jogador de tal maneira excepcional. Nos cruzamentos, nos escanteios, nas cobranças de falta, Mané demonstrava imenso brilho. Inexecrável, eliminava zagueiros como quem mata formigas. O zagueiro que se levantava, coitado, corria o risco de cair no chão ou de ficar torto na frente do Mané.
Ruy Castro também aborda em seu livro que Mané nunca desprezara o adversário. Para ele, o jogo nada mais era que uma brincadeira, uma dança. Não fazia sentido fazer gols e ganhar o jogo. O ideal era brincar. Por isso vários dos seus colegas de trabalho reclamavam de seu estilo. Diziam: "Passa a bola, Mané!" E ele não passava. Preferia correr pela ponta-direita, entortar mais 3 ou 4 zagueiros e, quando estava de cara pro gol, era mais provável que voltasse para entortar mais uns 2 antes de fazer o gol.
Segundo Castro, para Garrincha os zagueiros não eram "João". Todos tinham sua identidade. Cada um entrava em cima de suas pernas tortas com menos ou mais violência. Ele sabia o nome de todos que enfrentava e a todos considerava. Um dia, numa entrevista, ele afirmou que achava que "todo mundo era João". Mas isso aconteceu anos mais tarde, depois de Mané passar por muitos problemas.
A parte mais interessante desta obra é o que diz respeito à vida pessoal deste jogador. Garrincha foi um pai descomunal. Não porque fosse um bom pai - o que de fato não foi -, mas por ter sido pai de mais de 10 filhos (sendo 8 com uma única mulher). Sua vida sempre se dividiu entre futebol, álcool e mulheres. As mulheres foram muitas. Tantas que nem Ruy Castro sabe afirmar. As partidas de futebol foram muitas. No final do livro, inclusive, há um índice com todas as partidas que Garrincha jogou, nos mais diversos times. O álcool foi a sua derradeira desgraça. Foi o que o levou aos maiores traumas de sua vida pessoal, tão bem contados nesta obra.
O trabalho biográfico é muito bom. As fotografias são de extremo bom gosto e retratam bem o Garrincha em suas mais diversas fases. O livro é altamente indicado não só para aqueles que gostam de futebol, mas para todos aqueles que apreciem uma boa história. Uma história emocionante sobre a Estrela Solitária que tanto brilhou por este mundo.

O Anjo Pornográfico

Nelson Rodrigues gostava de se considerar um reacionário. Nas rodas de amigos, sempre criticava o esquerdismo extremo dos seus colegas. Poucos sabem que um de seus filhos foi perseguido pela ditadura militar por participar de um movimento revolucionário, o MR-8.
No livro "O Anjo Pornográfico" - Cia. das Letras, 424 páginas - Ruy Castro conta a emocionante história de vida do que é hoje considerado o melhor dramaturgo do Brasil. Ruy Castro, fã assumido do poeta, aproveita para contar não só a história de Nelson, mas de toda a família Rodrigues. Desde a profissão do pai como jornalista no Nordeste, até a sua vinda para o Rio de Janeiro.
A família Rodrigues, sem dúvida, teve grande importância no jornalismo e na cultura do Brasil. Mário Rodrigues, o pai, tinha seu próprio jornal chamado "A Crítica". Nele trabalhavam seus filhos, como Roberto Rodrigues, Mário Rodrigues Filho - mais conhecido como Mário Filho -, o próprio Nelson e, conforme os irmãos iam ficando mais velhos, também trabalhariam no jornal do pai.
Mário Filho também foi de grande importância. Por causa dele, o jornalismo esportivo é o que é hoje. Com o seu jornal de páginas rosadas, o Jornal dos Sports, Mário Filho conseguiu angariar recursos para construir o Maracanã. Promoveu os Jogos da Primavera no estádio e incentivou a criação do Campeonato Brasileiro como ele é conhecido hoje. Não é à toa que o estádio do Maracanã teve seu nome alterado para Estádio Mário Filho.
Nelson Rodrigues brilhou tanto quanto seu irmão, mas de outra maneira. Peça atrás de peça, foi criando um âmbito diferente, um teatro diferente. Sem estar ligado aos europeus (Nelson era um orgulhoso monoglota), construiu seu próprio estilo. Suas histórias trágicas na verdade demonstravam um romantismo sem par.
Nelson era um homem romântico. A sua vida consistia em estar sempre apaixonado. Mesmo casado, teve seus casos com outras mulheres (com a devida aprovação da mulher, na época em que isso era considerado comum). Mas era um homem sofrido. Doente, sofreu anos e anos com a tuberculose. No entanto nunca deixou de fumar.
O estilo de Nelson pode lembrar o dos ultra-românticos. Sempre apaixonado, sempre doente. Mas Nelson era diferente, pois conseguia viver suas paixões em vida.
Ruy Castro também fala bastante das obras não-dramatúrgicas do escritor. Dentre crônicas esportivas, textos que escreveu sob o pseudônimo de Suzana Flag e textos secretos, há ainda muito a ser lido deste intrigante homem. Uma obra que, sem dúvida, ainda deve dar o desgosto que as suas frases densas sempre causavam nas platéias. Castro está planejando o relançamento das obras do autor pela editora Cia. das Letras. Espera-se muito do que ainda há para vir.
Enquanto isso, vale a pena ler sobre este homem instigante que foi Nelson Rodrigues. Ele gostaria de saber que hoje há pessoas interessadas no que ele fez. A não ser que você seja mineiro, afinal o mineiro só é solidário no câncer, não é mesmo?

Chatô, O Rei do Brasil

Há quem diga que Chateaubriand foi um francês que fez sucesso no Brasil ao trazer o avião, a televisão e o modelo de imprensa internacional. Mal sabem que este mesmo Chateaubriand era, na verdade, um paraibano de Umbauzeiro, mesma cidade do ex-presidente Epitácio Pessoa. Poucos sabem que era titular de uma cadeira da Universidade de Pernambuco, que fazia parte da Academia Brasileira de Letras e que chegou a ser senador e Embaixador do Brasil na Inglaterra.

Todas as incursões de Chatô nesse mundo estão no livro colossal de Fernando Morais. Chatô, O Rei do Brasil - Fernando Morais, Companhia das Letras, 1994, 734 páginas - mostra o cotidiano de um movimentado país entra as décadas de 1910 e 1960. Décadas estas em que Chateaubriand mostrou o seu brilho e seu estilo a um país desacostumado a tantas desventuras e bravatas como as contadas neste livro.

A obra é densa. Fernando Morais não dispensou pesquisas, entrevistas e, principalmente, palavras. O farto material fotográfico e documental obtido no decorrer da elaboração do livro é, no mínimo, notável. Durante a leitura, o leitor tem a impressão de estar sendo transportado para a época do acontecimento dos fatos. Os detalhes não são esquecidos. Até mesmo uma pequena passagem corriqueira da vida de Chateaubriand torna-se algo indispensável para a total compreensão da obra.

Chateaubriand era um homem de personalidade. Sua aura estaria presente na vida de políticos, industriais, fazendeiros e magnatas do Brasil por onde quer que fosse. Era considerado intocável por muitos - em parte por que andava armado com duas perigosas armas: um jornal e um revólver. Poucos se atreviam contra a imprensa de Chatô. Sabiam que corriam o risco de retaliação por parte de sua cadeia de jornais, revistas, rádios e televisões. Televisões estas que ele mesmo trouxe ao Brasil.

Com tantos afazeres, falar da vida deste homem se torna complicado em menos de setecentas páginas. É claro que, por muitas vezes, tem-se a impressão de que alguns fatos poderiam ser vetados em detrimento da facilidade de leitura. Nota-se também que o autor não se utiliza de recursos estilísticos de forma a tornar a leitura mais simples. Ele se utiliza, por muitas vezes, de longos parágrafos, com frases compridas e demoradas. Bom para o leitor mais perspicaz, acostumado às mais diversas variedades de estilo. No entanto, Chatô esteve por toda parte no Brasil por mais de 50 anos e hoje anda apagado da memória do brasileiro. O livro mereceria tocar não apenas à parte mais letrada da população, mas a todos aqueles que têm acesso à leitura e apreciam algo menos denso.

Faz-se necessário lembrar que a história de Assis Chateaubriand se mistura à história do Brasil. Para quem não sabe, Chatô se envolveu com a Revolução de 30, com a Revolução Constitucionalista de 32, com o golpe do Estado Novo e com o Golpe de 64. Em todas essas etapas, Chatô esteve presente como o "homem da imprensa" que apoiava o governo (ou derrubava governos) com o poder de um lápis e de um papel. Sabia, mais que ninguém, como exercer a tarefa de dono de jornal. Era dono da idéia de que "quem quiser ter opinião, que compre seu próprio jornal".

Para quem pouco conhece o Brasil e sua História, ler Chatô é obrigatório. Obrigatório não só para observar o Brasil da época, mas para duvidar da documentação jornalística. Com Chatô, assiste-se ao mais complexo festival de opiniões na imprensa. Opiniões pessoais, até. Se se espera um jornal imparcial, um documento do cotidiano, Chatô subverte todas as expectativas. Ao subvertê-las, modifica todo o âmbito de seus fiéis leitores-escudeiros. Modifica-a como se fossem os ponteiros de seu relógio, a seu favor. Adiantando sempre o ponteiro para nunca chegar atrasado.

"Chatô, o Rei do Brasil" é a história da vida vertiginosa de um dos brasileiros mais poderosos e controvertidos deste século. Uma história de vida, portanto. Mas não é a história do homem que importa, mas sua própria vida. Vida esta que tanto mudou o país, como uma agulha muda todo o sentido de um palheiro. Utilizando apenas os seus garranchos - sempre escrevia à mão com letra ininteligível - Chatô foi capaz de mudar um país com a mesma intensidade que aquele asteróide, um dia, destruiu os dinossauros.

O estúpido

Estúpido estava estúpido. Não sabia por quê exatamente ele estava naquele estado, mas estava muito estúpido. Foi até o banheiro e examinou o estado de sua escova de dentes. Percebeu que ela estava gasta e a examinou um pouco antes de escovar os dentes. Sua esposa que o observava à porta do banheiro fez um comentário:
- É, precisa comprar outra, né?
- Não, não precisa não. Eu vou começar a escovar os dentes com a língua e limpar azulejo com essa escova.
Dizendo isso, pegou a escova com pasta de dente e tudo mais e começou a limpar o azulejo do banheiro, enquanto ficava passando a língua nos dentes. Sua mulher, já acostumada com os ataques de estupidez de Estúpido, deixou ele se divertindo com sua estupidez desdita. A casa inteira já sabia: Estúpido era estúpido e não havia uma forma de fazê-lo mudar.
Chegando a cozinha, Estúpido se depara com a família. O dia estava quente e o sol entrava por todos os cantos da cozinha.
- Está quente.
- Não, é São Pedro fritando um ovo!
O filho mais jovem de Estúpido, já acostumado com a estupidez do pai, ainda riu da cara do pai com uma certa superioridade. Era incrível a capacidade daquele homem de não suportar o óbvio. Estúpido foi ver o que havia na geladeira e percebeu que não havia leite. Sem dizer uma palavra, pegou sua carteira e saiu de casa para comprar o leite que faltava para a família.
Chegando à padaria, comprou o leite rapidamente e saiu. Quando estava saindo da farmácia, Estúpido lembrou-se de comprar o cigarro escondido, coisa que fazia desde o casamento, escondido de sua mulher e de seus filhos. Comprou e colocou num dos bolsos da calça rapidamente e disfarçou com a camisa por cima. Saiu da padaria e então Estúpido ouviu um comentário de um colega seu, seu Manoel.
- Ei, Estúpido! Comprando leite para seus filhos?
- Não! Eu comprei leite para lavar a calçada!
Assim dizendo, Estúpido derruba o leite na calçada e começa a espalhar com uma vassoura que Manuel, vendedor de vassouras, carregava.
- Pronto, agora está limpo.
Estúpido saiu com apenas um litro de leite, sendo que tinha comprado dois. Sua estupidez causava-lhe certo ânimo, certa felicidade e dava-lhe certa força de espírito. Estúpido sabia como era estúpido, de corpo e alma. E gostava disso.
Chegou em casa com uma cara estúpida. Estúpido estava mais estúpido do que nunca. Colocou o leite em cima da mesa da cozinha e deixou sua mulher abrir o leite e fervê-lo. Quando o leite já estava na panela, sua mulher lhe diz:
- Vou ferver o leite.
- É claro. Suponho que você não vai deixar ele aí para evaporar para chover leite mais tarde.
Os filhos mais uma vez riram e sua mulher ainda soltou um sorriso alegre, como se dissesse: "te amo". Ele, que leu os pensamentos dela, ainda diz:
- É claro que você me ama. Afinal eu também te amo.
Uma resposta estúpida, mas amável, vinda de um estúpido. Sua mulher sabia que ele sabia ser amável, ao jeito dele. Mas sabia. Embora ainda assim parecesse um pouco estúpido. Mas estúpido não poderia ficar muito tempo naquilo. Ele tinha que ir trabalhar, ganhar seu dinheiro para sustentar sua mulher e seus dois filhos pequenos. O banco o esperava e Estúpido era o gerente.
Estúpido, então, se levanta da mesa e vai ao seu quarto se arrumar para o serviço. Pega o terno e rapidamente esconde o maço em um dos bolsos de dentro. Pega uma camisa simples e uma gravata de seda marrom com listas marrom-claro. Coloca a calça de linho e o terno leve, para dias de verão. Sua mulher entra no quarto e, sem querer, pergunta-lhe o óbvio:
- Já está se arrumando para o trabalho?
- Não. Para o Clube das Mulheres.
- Você não é tão sensual para isso...
Estúpido sentiu-se mal. Ele não sabia lidar com estupidez em assuntos sexuais. Então, rapidamente, com um gesto estúpido, saiu do quarto e foi à cozinha. Beijou seus filhos e disse-lhes adeus. Papai iria trabalhar. Os filhos logo compreenderam o que ocorria e, sem nenhuma pressa, continuaram comendo.
Estúpido se dirigiu ao seu carro e, como estava sozinho, resolveu ser estúpido consigo mesmo. Retirou a chave do carro e iniciou um monólogo.
- Não, eu não vou colocar a chave na fechadura da porta, na verdade eu vou usá-la como termômetro no meu cachorro. Não, eu também não vou ligar o meu carro, na verdade eu quero testar a parte elétrica da ignição. Não, eu não vou colocar a primeira marcha, na verdade eu estou fazendo isso porque eu sou estúpido. Não, eu não estou indo ao trabalho. Você não vê que isso é um foguete e que eu estou indo pra Lua? Não, eu não cheguei. Eu só parei aqui no estacionamento do banco porque é gratuito.
Estúpido chegara ao serviço. Sentiu-se pronto para mais um dia de trabalho. Sentou-se à sua mesa e esperou que o primeiro cliente viesse ter com ele e lá vem o primeiro. Ele chega com uma maleta e, sem dizer uma palavra, senta-se e abre a maleta. Lá era possível ver milhares de reais. O homem então diz:
- Quero abrir um conta.
- É claro. O senhor não iria querer fechar uma trazendo esse dinheiro todo aqui.
- Como?
- Nada, nada. Que tipo de conta o senhor gostaria de fazer?
- Qual é a melhor aplicação no momento?
- Eu acho que a longo prazo, a melhor aplicação é a poupança trimestral que não tem as garras do ICMS. O senhor tem alguma outra sugestão?
- O senhor é que está aí para me dar sugestões. Por que eu é quem teria que dar-lhe sugestões.
- Eu não sei. E o senhor? Sabe?
- Não, mas eu acho que o senhor é estúpido.
- Prazer, esse é o meu nome.
- O nome do senhor é Estúpido?
- Sim.
- Pois o senhor faz jus ao nome.
- Pode ter certeza que sim. O senhor vai aplicar ou o que?
- Bem, eu quero aplicar. Mas antes me diga uma coisa: vale a pena mesmo a poupança trimestral?
- Não. Se eu estou lhe dizendo que vale a pena é porque eu sou um otário e quero mesmo que o senhor enfie toda essa grana no commodities. É claro que vale a pena.
- O senhor é uma pessoa estúpida e convincente.
- É claro que eu sou uma pessoa convincente. Eu estou aqui para justamente convencer as pessoas a fazer o pior para elas e o melhor para mim e para o banco.
- O que?
- É isso mesmo.
- Mas o senhor é muito estúpido mesmo.
- Eu já não lhe disse que meu nome é Estúpido?
- Ora, o senhor que se dane. Me aponte outro gerente que eu não quero tratar mais nada com o senhor.
- Pois bem, fale então com o Gerente de Negócios. Ele está logo ali do lado. Boa sorte.
Estúpido estava sendo estúpido, realmente. Mas estava sendo sincero. A poupança trimestral, sendo aberta por ele, acabaria lhe trazendo comissões para o seu salário. Estúpido era estúpido, mas não tolerava a falsidade. Sabia exatamente como lidar com clientes que não entendiam o seu caráter estúpido de ser. Fazia isso enviando os clientes para o Gerente de Negócios, o Sr. Igor Norante, que não gostava muito de papo e sempre mandava os clientes enfiar a grana no commodities.
- Olá, Sr. Estúpido. Embora tenhamos tido algumas divergências, prefiro tratar do assunto com o senhor mesmo.
Estúpido era estúpido.

Desenlacemos as mãos

Já era tarde. Duas pessoas andavam de mãos dadas sem se olhar. Os passos firmes; o andar, rígido. A sola dos sapatos tocava o chão como uma marreta de madeira toca um prego. Era meia noite. Os olhos escuros miravam a ponta dos sapatos com a certeza de que um passo seguia o outro numa caminhada em alguma direção. Nada mais.
Um vulto escuro surge no céu. Os dois não se olham nem perguntam nada. Apenas andam de mãos dadas e em linha reta. Sobriedade, seriedade e, acima de tudo, negação. Negação de que as mãos dadas representam a união. Desenlacemos as mãos. Nos soltemos. Nos empurremos em direções contrárias. Isto feito, resolvem olhar o céu. Uma imensa aeronave lá está e observa tudo o que acontece.

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Acontece em qualquer relacionamento. Num determinado momento da vida as pessoas já não se olham e continuam de mãos dadas. Quando soltam as mãos resolvem olhar umas às outras e, não percebendo o que um dia houve em comum ou o que um dia acharam agradável, olham para cima procurando alguma coisa, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mesmo que seja um disco voador que, em nome da pesquisa científica (patrocinada ou não), viera a Terra para estudar coisas triviais como o relacionamento humano.

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A nave espacial os observou sozinha, como se tivesse vida própria. Eles, que desejaram a sua presença, esperavam que ela pudesse explicar toda a complexidade do relacionamento humano, desde o Amor Idéia até o Amor Sensual.
Talvez se Platão estivesse vivo não compreendesse como o Amor Idéia não dá certo. Ele talvez se surpreenderia com a falta de objetividade e de valor do Amor no ser humano nos dias atuais. Amor Mercado, Amor Virtual e Amor Real formariam o que no passado ele chamava de Amor Idéia. Rever sua filosofia pode não ser fácil. Platão morreria caso vivo estivesse.

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A nave espacial aproximou-se deles numa tentativa de cumprimentá-los e informá-los de sua missão. Um convite muito singelo. Aceitaram sem pestanejar. Deixaram-se levitar pela força antigravitacional como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo - isso é explicado pela natureza do ser humano que, quando abatido e contrariado, acha que tudo é normal - e entraram na astronave. Bonito. Lindo. Maravilhoso. Botões e luzes por todos os lados. Computadores de última geração. Redes interligadas, máquinas de luzes estranhas, objetos de formas duvidosas mas nenhum operador. De que adianta o equipamento se não podemos perguntar ao operador "pra que serve este botãozinho vermelho"? Pergunta esta recorrente no sexo logo após o casamento.
Só então é que surgem dois homenzinhos verdes que vieram para não contrariar a fantasia. Reafirmaram-na. Diziam ser marcianos também. Nada poderia ser mais desagradável. Nenhuma surpresa. Nenhuma novidade.
Com tudo isso, se olharam mais uma vez. A nave sumira. Não havia ninguém ali. Todos estavam dormindo à meia-noite menos eles. Esta era a única surpresa. A única novidade. Desenlaçaram as mãos. Soltaram um adeus baixo, um beijo frouxo, um abraço ralo e nunca mais se enlaçaram novamente.