15 de dez. de 2007

Eles existem

Prazer, eu sou um Deles.
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Dizem que quem inventou a Ordem foram os antepassados pré-históricos do homem. Portanto somos mais antigos do que se imagina. Desde a ordem dos Primatas, quando se estabeleciam as primeiras relações de cordialidade, alguns homens - ou melhor, ancestrais do homem atual conforme conhecemos - resolveram implantar a discórdia na fórmula final da sociedade.
Não se aflija ainda. Isto é um processo contínuo que vem amadurecendo com o decorrer dos milênios. Hoje há até genes que determinam a discórdia entre seres humanos. É algo absolutamente natural. A Ordem sabe disso e gerencia para que haja cada vez mais discórdias na humanidade.
A criação do maniqueísmo foi obra da Ordem. "Yin e Yang" e "Bem e Mal" foram os conceitos criados para expressar as diferenças que existem na população mundial. Embora isto possa parecer estranho, a divisão anteriormente não existia. Basta lembrar que o homem era um animal movido por seus instintos e isso pouco interferiria em seu julgamento do que é certo ou errado. Até hoje o ser humano procura dividir tudo em duas vertentes opostas entre si. É o que se chama de reducionismo. Criamos isto também. O reducionismo já permeou pelas linhas do teológico-humano, do capitalismo-socialismo, do nacionalismo-liberalismo e hoje anda no eixo rico-pobre.
A filosofia oriental sempre adequou o maniqueísmo como sendo a perfeita descrição do humano: uma mistura de água e fogo, sendo que a água tem salamandras de fogo, assim como o fogo tem gotas d'água. A História é, também, instrumento da ordem. É a História que ensina aos jovens a cultura de seus antepassados. E cabe ao estudo da História, justamente, a adequação da História boa e próspera, assim como da história das guerras, pragas, revoluções e mortes.
O medo inconseqüente da morte e das conseqüências dos seus próprios atos não foi instituído pela Ordem. Pelo próprio amadurecimento da Outra Parte, estes ideais foram construídos para evitar que a Ordem invadisse a maior parte da população mundial. Os planos da Ordem hoje é o de dominar. Dominar não significa escravizar, mas criar a tão chamada "Nova Ordem Mundial". É claro que, nesses termos, pode não significar nada para o leitor mais fugidio, acostumado às mudanças rápidas dentro de sua própria casa, por exemplo. Mas significa muito mais. O exemplo está na própria religião.
A religião não foi criada pela Ordem. A Outra Parte acreditava que era capaz de conter o avanço da Ordem criando um mundo místico, subjetivo e pouco racional, onde deuses seriam os criadores de tudo o que existe. As palavras deste deus ou deuses eram criadas pela Outra Parte, que acreditava estar influindo no resultado final da espécie.
A maturação deste movimento se deu na Idade Média. Neste período, a Ordem acreditou que iria perder a batalha para a Outra Parte. Foi quando percebeu que nada estava perdido. Surgiram alguns pensadores racionais e objetivos com as suas brilhantes obras. Eram capazes de chamar a atenção apenas por seu brilho e inteligência. A Ordem - por intermédio dos mecenas - deu-lhes a chance de criar retratos magníficos da humanidade. Cada expressão facial das obras de Rafael, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Botticelli e Donatello tinham a cara do humano de verdade. O movimento do homem deu novo impulso à Ordem e aos seus ideais.
Os ideais da Ordem, diga-se, devem ser muito bem documentados. A Ordem tem como ideal que a harmonia entre os homens é, na realidade, maléfica. Não queria me referir ao assunto me utilizando do termo "maléfica", mas isto se tornou necessário depois que criamos o maniqueísmo. Hoje ninguém entende nada que não seja "preto no branco".
Voltando ao assunto: a harmonia é maléfica porque não inspira. Não há inspiração para se construir naves espaciais se não houver o perigo de guerra. Einstein não criaria a Teoria da Relatividade se não tivesse fugido da Alemanha por ser judeu. A discórdia cria expectativas, anseios, medos. Tanto que, para realçarmos o valor do Renascimento, criamos a Inquisição. Giordano Bruno morreu, e Galileu Galilei quase foi junto ao tentar comprovar a teoria heliocêntrica. Teria ele feito esses estudos se não tivesse tantos anseios?
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É necessário ressaltar que o amor é um pecado (desculpe-me por utilizar outro termo criado pela Outra Parte, mas faz-se necessário visto que a maioria de vocês não entenderia a minha argumentação se eu dissesse que o amor é apenas uma "coisa errada"). O amor tem sua função, é claro, mas não pode existir amor em todas as pessoas. A Ordem não quer acabar com o amor entre duas pessoas. Este amor é útil, pois determina a reprodução e a perpetuação da espécie. O problema é o amor fraternal, completo, lírico e perfeito dentro de uma sociedade.
Em alguns momentos da História surgiram as revoluções pacíficas. Os homens passaram a desenvolver o chamado "amor social" - criado, é claro, pela Outra Parte. O que se viu foi o intenso apego à natureza. O materialismo foi deixado de lado em nome do sexo e das substâncias que podem promover a paz momentânea da mente. O ser humano nunca havia procrastinado tanto como naquela época. Um tipo de sociedade como essa não evolui. Sem ambições maiores, sem expectativas, sem anseios, sem medos, sem discórdia, sem concorrência. A sociedade fica estagnada esperando que a solução de seus problemas venham em forma de sonhos. Ou ainda: que os problemas sumam, porque não se pensa mais neles.
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O divórcio é algo útil. Gera o empenho do marido em ganhar mais dinheiro e em encontrar um novo amor. A mulher passa a se desdobrar para se manter sozinha. Se tiver filhos, é ainda melhor. Os novos tempos criam novos anseios, que geram novas idéias, que geram novos projetos. Além de ser um foragido da Alemanha, Einstein brigava com todas as suas mulheres. Deveria haver um motivo, não é mesmo?
Há casos mais interessantes. Os pais que cobram demais dos filhos, por exemplo. Na adolescência, os filhos tendem a se tornar rebeldes e se colocarem contra algumas idéias dos pais. Por causa desta discórdia, os filhos acabam desenvolvendo dons incomuns. Geralmente são mais criativos e inteligentes que os outros. Sobressaem-se nas aulas, no trabalho, na vida amorosa, no sexo, no amor, em tudo. Tudo por causa da discórdia.
Sem contar os inúmeros casos de paixões. Homens canalhas, que deixam as mulheres perdidamente apaixonadas para depois abandoná-las. Tudo isto está previsto e catalogado pela Ordem. Mesmo os casos de Depressão são interessantes. Pessoas que passam por isso tendem a se conhecer melhor do que as outras. Por causa disso, buscam sempre um caminho interessante, criativo e inteligente para continuar vivendo. Os fracos, infelizmente, deixam um rastro de seu próprio sangue na História - pois preferem viver na História a viver a vida.
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A Ordem não é moralista, nem reacionária. A Ordem existe para implantar a desordem, a discórdia e o medo. Tendo isso, o ser humano se encarrega do resto. A maneira de implantar a desordem pode variar, é claro. Mas a idéia é sempre a mesma, não se esqueça.
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A Ordem é formada por nada menos que cinqüenta porcento da população mundial. Isto porque foi feito um acordo que terminará ano que vem. Neste acordo está previsto que a Ordem deve dominar apenas a "metade da laranja". Após o término do acordo, haverá uma reunião entre membros de ambas as partes para decidir se o acordo deve ser renovado. A Ordem não pretende renovar. O objetivo é conquistar noventa porcento das pessoas.
Sabemos que a aproximação com a Ordem por parte das pessoas é intensa. O ateísmo tem crescido nos mais diversos países. Além disso, nunca se discordou tanto quanto hoje. O número de discussões tende a aumentar cada vez mais. O estudo filosófico da religião leva cada vez mais jovens para o estudo científico de todos os aspectos da humanidade. A Ordem tem grandes chances de se tornar única, de dominar o mundo.
Depois de mostrar tantos argumentos, creio que você gostaria de ser um de Nós. É fácil. As contribuições são simples.
É possível não dar dinheiro para crianças famintas na rua. Nem colaborar com creche alguma. Discutir sempre com os pais é interessante. Brigar com o namorado é ótimo. Encontre maneiras de irritar seu colega de trabalho. Faça brincadeiras com os outros que você não gostaria que fizessem com você. Arrume um divórcio. Enfim: faça parte da Ordem.
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Ou será que você já não faz?

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