- Mas os grupos já foram formados!
Fiquei atento. A qualquer momento eu poderia morrer. Mas isso era pouco provável àquela hora. Não porque eu estivesse me sentindo imortal. Mas sim porque eu não estava nada moribundo. Aliás, nem sei porque estaria. É certo que vou morrer, mas não vai ser hoje.
- Depois de formado, o grupo deve se reunir para decidir o que será feito.
Tudo ali era em grupo. Eu nem sabia do que se tratava, mas estava no meio. É claro que os grupos eram formados entre os amigos que já haviam decidido entre si que seriam amigos. É claro que essa decisão foi feita sem nenhuma sabedoria se o amigo que era amigo poderia ser amigo. Mas tudo aquilo era repetitivo demais. Os grupos, as pessoas, os estereótipos, os arquétipos. Eu sei que isso tudo é bobagem, divisão de mundo, pensamento divisor, agrupador, preconceituoso, idiota e ignorante, mas eu não conseguia pensar diferente. Fui com o meu grupo para o espaço reservado a eles. A mesa, bem, a mesa era aquelas ruins em que ou você põe o braço ou o caderno. Feitas para fazer da coluna saca-rolha. O tema que o meu grupo escolheu era "O Saber". Curioso.
- O saber. O que é o saber, não é? Não podemos nos esquecer que saber é entender, é compreender.
Sei lá. Para mim saber veio do latim "sappere". Tinha dois significados este verbo em latim. O primeiro era "ter sabor de". Este significado é o mesmo no português e no espanhol. Ele ainda existe, apesar de pouco utilizado. Assim, o café daquele lugar sabia a coca-cola. A coca-cola sabia a café com gás sem gás. O ar sabia a nitrogênio setenta porcento, oxigênio vinte porcento, gás carbônico duzentos porcento. Eu mal conseguia pensar com tanto gás carbônico no recinto.
"Saber exige gosto", eu disse. E deixei no ar. Fui altamente ignorado pelos arcanos maiores da sabedoria. Por que eles imaginariam que o saber é algo estomacal? Intestinal?
- Etimologia. As palavras "saber" e "sabor" têm a mesma origem.
Ignorado uma vez mais. Um garoto novo falava que saber era o conhecimento das possibilidades. O sábio assim o era pois conhecia todas as contingências. Ora, quanta petulância. Para mim o sábio era sábio pois já tinha sentido o sabor de absolutamente tudo. Não poderíamos ser sábios sem saber como fica a mistura de salgados com doces na língua. O sábio tinha de examinar todas as possibilidades do saber para realmente ser "sábio". Mas é claro que isso é tudo etimologia.
- Existe a tal da "sede de sabedoria".
- Deveria ser "gula de sabedoria". Vocês sabem. Etimologia.
Colocado de lado. Ouvi o sinal de exclusão, igual àqueles de programa de auditório. Ninguém aqui quer saber de etimologia. Dane-se a etimologia. Viva a enteroscopia. Sei lá. Confesso que me senti frustrado. Eu julgava conhecer alguma coisa sobre "O Saber", mas pelo visto não entendia nada. Outro lançou mão de alguma coisa sobre a carta "O Mago" do Tarot. "O Mago", supostamente, conhecia as possibilidades, vivia nos três mundos, era sábio e alterava o seu próprio destino. O mago era livre. Ah, a liberdade. A liberdade, sabe o sábio, não existe. No entanto eu estava ali justamente pensando sobre esses detalhes todos, sobre todas essas bobagens que as pessoas falavam e repetiam até que percebi o quão imbecil eu também era. Eu não era sábio, estava falando de etimologia enquanto a conversa enveredava para o aspecto místico do saber. O que eu poderia dizer?
- Gente, tenho uma sugestão.
Olhos para cima de mim. De repente deixei de ser ignorado. Quase me senti importante. Tentando caçar na mente qual era mesmo a minha sugestão, acabei por titubear por dois ou três milésimos de segundo (pareceu ser bem mais).
- O saber é conhecer as possibilidades. Mas isso é um tanto quanto surreal. É impossível saber todas as possibilidades. Que tal falarmos do saber como o "ter gosto"? Vocês sabem. O saber está ligado ao sabor. O conhecimento é absorvido pelo cérebro como um belo prato de Pato com Laranja. Qual é o sabor do saber? Talvez possamos enveredar para este sentido e dar um sentido mais interessante ao que é saber.
Olhos para baixo de mim. Mediam-me. Calculavam a força necessária para me atirar pela janela. O tema era difícil, eu sabia. Mas... por que eu estava falando ainda do sabor? Está certo que eu adoro comer. O paladar e o olfato, para mim, são sentidos privilegiados. Gosto da imagem do saber associada ao sabor. Quando leio um livro, por exemplo, o meu cérebro parece estar mastigando. Vejo um filme, ouço música, o cérebro bebe.
- A sua idéia é um tanto quanto interessante. Porque você não escreve essa parte?
A pior das exclusões. Manifeste o seu pensamento em separado, coloque o seu nome e deixe claro que isso é responsabilidade sua. O grupo reprime, o indivíduo suprime, as coisas somem. Tudo sumiu para mim. Peguei uma folha do caderno e alonguei os pulsos, já me preparando para a cãibra. Iria escrever como nunca. O papel estava em branco e eu já o via cheio de inscrições estranhas, garranchos, rabiscos e uma série de idéias encadeadas. É importante que as idéias sejam encadeadas senão o texto sobre "O Saber" fica muito surreal. Já imaginei o texto como anexo extra, grampeado por fora, com outro grampo, com o grampeador de outra pessoa de outro grupo. A exclusão dos grampos, meu Deus. Quantas coisas já não fiz para não merecer isso?
O Cérbero do grupo (não vou chamá-lo de Cérebro, já estou me sentindo o próprio Teseu sem qualquer Ariadne por perto segurando fios de qualquer espécie) já estava atento à sua caneta. Escrevia sobre o saber como conhecimento das possibilidades. Provavelmente anotava, entre uma linha e outra, detalhes sobre as iniciações antigas, sobre o Egito, sobre a Grécia. Ele estava no meio da labirinto e eu tentava percorrê-lo. Que saco. Esse treco de labirintos me irrita. Os labirintos são cheios de bifurcações terríveis. Parecem o próprio "saber".
Mas sei lá sobre o que ele estava escrevendo. Eu fui incumbido de fazer qualquer outra coisa que esteja fora da ótica habitual do grupo. Ou seja, eu deveria pensar fora da caixa. Bem, então escreverei sobre um belo prato, típico dos natais. Pensemos nos lombinhos com abacaxi e fios de ovos. Como é Natal, o lombinho é servido na temperatura ambiente, isto é, frio. Mas é interessante. O gosto de tal iguaria é curioso. Mistura-se o azedinho do abacaxi com o gosto incógnito do lombinho. E comer tal prato é sabedoria. Tal prato sabe a lombinho com abacaxi e fios de ovos. Nada mais sabe a isto. Não existe um sorvete com este gosto e provavelmente não existirá nos próximos dois séculos. Eu sei.
Mas não sei se vale a pena escrever sobre isso. Nesse momento eu estou pensando em tantas coisas que significa saber. Aliás, só de pensar em todos os significados de "saber" eu já estou ficando "sábio". De certa forma o grupo está certo. "Saber" é conhecer as possibilidades. É ter conhecimento das contigências. É vislumbrar as coisas e reconhecer em tudo potências e atos. Mas isso tudo é muito filosófico. Seria mais interessante eu pensar em exemplos.
Imaginem, portanto, um rapaz que é paquerado por uma moça num ponto de ônibus. A moça veste roupa extremamente curta, é loira tingida, alta e tem voz rouca. O rapaz fica facilmente excitado. Uma pessoa observadora nota, no entanto, que a moça possui as batatas da perna meio grandes demais. Algo está errado. Ali, então, este observador externo saberá que a tal moça é, na verdade, um moço. Ele então vislumbra as possibilidades do rapaz dar ou não um beijo na moça. Aí estão descritas as possibilidades. O ato é o de dar o beijo, que por enquanto existe apenas como potência. Ele está tendo a sua primeira experiência homossexual em potencial e não sabe. Eis aí o fato. Mas onde está o ato? Supondo que ele beije a moça sem saber o que ela é, não necessariamente ele terá se tornado homossexual. Esta opção só existe como potência ainda, já que o ato homossexual ainda não foi consumado. Mas o beijo já foi feito. Portanto agora estamos com um saldo no placar: 1 para o beijo, 0 para o homossexualismo. Se ele pegar um ônibus com a moça e seguir abraçado com ela, não restará mais dúvidas de que o jogo vai terminar 1 a 1. Sem trocadilhos.
Saber. Saber é também uma grande dor, não é? A adolescente que se descobre grávida sabe que terá um futuro incerto. Mas... a gente não sabe sempre que teremos um futuro incerto? É estranho. A única coisa que realmente sabemos é que vamos morrer. Sócrates dizia que a única coisa que ele realmente sabia é que nada sabia. Fazendo uma associação um tanto quanto estranha, chegamos a conclusão de que "nada saber" é igual a "morrer". Sócrates, portanto, já se sabia morto. De certa forma já tinha tomado sicuta quando exprimiu tal máxima. Seria um caso de vida pós-suicídio pouco documentado na História da Psicologia e da Psicanálise.
Não sei mais do que estou falando. Provavelmente não sei nada e já morri. Não sei exatamente o que se passa na cabeça dos meus colegas de grupo. Apenas uma pessoa escreve e as outras pessoas falam sobre os mais variados assuntos. Será que eles sabem o que eu estou escrevendo? Eu sou a única pessoa que escreve aqui. Afinal de contas este é o nosso trabalho. Sei que sofro de excesso de criatividade e talvez fosse melhor deixar para outra pessoa escrever. Mas... infelizmente me escolheram. Eu tinha de falar em mitologia, etimologia, filosofia e História, não é? Eu sempre me ferro nessas situações. De qualquer maneira, este é o trabalho que vamos entregar. Este é o ensaio que deveria ter sido escrito de maneira original, numa linguagem completamente diferente, conforme nos pediu o professor.
Todo mundo já terminou de escrever. Eu tenho mania de escrever demais mesmo. Não posso fazer nada. De qualquer forma já está pronto. Vou só colocar os nomes aí embaixo para que o professor saiba quem fez este trabalho. Espero que seja digno de alguma nota entre sete e dez, pelo menos.
TEMA: O SABER
Turma: 2C
Grupo: Aline Martinho, José Silva, André Meirinho, André Alves, Carlos Seixas, Paula Rodrigues
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