15 de dez. de 2007

Sendo você mesmo

Mário era uma pessoa diferente. Muito raramente falava a verdade. Mentia sempre que possível para poder se divertir com as pessoas.
- Mário! Tudo bom? Como você está?
- Péssimo, estou com dor no fígado.
Para tornar ainda melhor a sua condição, Mário fazia o rosto e os olhos ficarem amarelos.
- Nossa, mas o que você tem?
- Não sei. Estou achando que é hepatite. Viral, daquelas que passa pelo ar, sabe?
E tossia.
- Mas Mário... vai pra casa! Pelo amor de Deus, você vai contaminar todo mundo!
Nesse momento Mário ria. Muito alto.
- Vou nada.
E fazia sua pele voltar à cor normal.
***
Não raro Mário se fazia passar por outras pessoas. No trabalho, o telefone de sua colega de trabalho sempre tocava quando ela não estava lá. Mário sempre atendia imitando com perfeição a voz de Mariana.
- Alô.
- Oi, Mariana... meu amor. Tudo bom?
- Tudo bem. Quem está falando?
- Como assim quem está falando? É o amor da sua vida.
- Não tenho amores na minha vida.
- Como não? E o que fizemos ontem? Não tivemos uma noite de amor?
- Amor nada. Foi uma noite de foda. Como qualquer outra.
- Você não pode estar falando sério, Mariana. Estamos de casamento marcado!
- É bom você saber que só vou casar com você porque eu te odeio.
- Como assim?
- Ódio, meu querido, é uma forma de amor. Até mais!
E desligava na cara do noivo.
***
Difícil, para Mário, era ser ele mesmo. Isso acontecia quando ele ia fazer compras. Dessa vez ele tinha ido num supermercado.
- Noventa e dois reais e trinta e seis centavos. Qual é a forma de pagamento, senhor?
- Teletransporte.
- Como, senhor?
- Vale-transporte.
- Senhor, não aceitamos vale-transporte.
- Ah não?
- Senhor, o senhor já falou isso da outra vez que veio aqui.
- Ah é? Lembre-me disso na próxima vez. Noventa e dois reais e trinta e oito centavos?
- Não, senhor. Noventa e dois reais e trinta e seis centavos.
Ele preenchia o cheque bem devagar, com uma ótima caligrafia.
- Aí está. Noventa e dois reais e trinta e cinco centavos.
- Mas senhor... eram trinta e seis centavos.
- Eu quis dar dois a mais e você reclamou. Achei melhor dar um a menos e você também reclama?
- Senhor, não tem problema.
- OK, minha senhora, muito obrigado.
***
Outra situação em que Mário tinha de ser ele mesmo é quando ele estava com uma mulher. Nesses momentos era estritamente necessário responder tudo com sinceridade.
- E aí, Mário... você é um homem interessante. O que você faz exatamente?
- Eu? Eu sou gerente financeiro de uma grande financiadora.
- Ah é? Parece interessante.
- E é. Adoro o meu emprego.
- E o que você faz, senhor gerente financeiro?
Ela falava e sorria.
- Nada. Nada o dia todo. Apenas sento na minha cadeira e observo os gráficos no computador. Se eles caem, eu grito com os funcionários mais novos com o intuito de ameaçar os mais antigos. Se eles sobem, faço uma reunião e elogio a minha equipe. E assim é.
- Tão simples.
- Bastante.
- Você não está falando a verdade.
- Para te falar a verdade, estou te falando toda a verdade. O meu trabalho consiste nessa rotina. Fico sentado o dia todo e, para fugir da rotina, prego peças nos meus amigos, colegas e familiares.
- Como assim?
- Eu sou muito brincalhão, sabe? Faço muita piada com todo mundo. Tenho amigos que dizem que eu deveria mesmo era ser ator.
- Ator?
- É, ator.
Ela o admirava. Ele parecia ficar cada vez mais bonito. Ela olha para o copo de vinho e pensa sobre o quanto aquilo poderia estar interferindo em seu julgamento.
- E você, o que faz?
Ela enrubesce.
- Sou secretária da diretoria de uma grande empresa multinacional.
- Isso parece ser bom.
- E é. Sinto-me realizada.
- Ah, é? Por que?
- Porque é o trabalho que sempre quis. Adoro organizar as coisas, as agendas... sou virginiana, sabe?
Mário não gostava daquele papo místico.
- Ah, é? Eu sou taurino. Já venho com os chifres.
- Como assim?
- No caso de você querer colocá-los em mim... não precisa. Já estão aqui.
- Ai... você é meio bobo mesmo, não? Por que eu faria isso?
- Bem, eu não quero tirar a sua virgindade. Acho bom você fazer isso com outro.
Ela não entendeu nada.
- Essa sua piada é muito sem graça.
- Você merece.
- Como assim?
- Não gostei de você. Você é sem graça.
- Estou vendo.
- Vou embora.
E Mário foi para casa.
***
Dois dias depois ela liga para ele.
- Eu... eu queria te perguntar. Você me achou mesmo sem graça?
- Claro. Você mal sabia segurar na taça de vinho. Quando o garçom coloca um pouco de vinho na taça, ele quer que você a experimente para depois colocar mais. Não é para você pedir mais como se estivesse numa festa.
- Desculpe.
- E eu odeio mulheres que pedem desculpas.
- Desculpe.
Mário desligou na cara dela.
***
Mais tarde ela liga de novo.
- Você é muito mal educado.
Mário começa a imitar a colega de trabalho.
- Quem é?
- É... eu queria falar com o Mário?
- Quem é?
- Joana?
- Joana? Que Joana?
- É uma amiga dele.
- Amiga? Sei...
- Quem é?
- Aqui é a esposa dele!
- Esposa? Ele nunca me falou que era casado!
- Mas é, sim, sua cretina. E vê se pára de ligar para ele que ele está doente.
- Doente?
- É. Ele está com hepatite. Escuta aqui, sua piranha, não foi você que passou hepatite para ele, foi?
Joana não aguentou. E desligou na cara de Mário.
***
Meses mais tarde eles se encontram numa festa de amigos em comum. Ela está linda, num vestido bem curto e preto. Mário adorou. Ele se aproxima.
- Você está muito bonita.
- Obrigada. Mas você não está interessado.
- Eu sempre estive interessado.
- Engraçado... cadê a sua aliança?
- Que aliança?
- Você não é casado?
- Nunca fui casado!
- Mas... e a sua esposa? Que atendeu a minha ligação?
Mário sorriu.
- Ela falava desse jeito? - perguntou imitando a voz da mulher.
- É! Exatamente. Era você?
- Claro.
- E você estava com hepatite?
- Não. Mas você, aquele dia, estava me dando dor no fígado.
- Ai, credo. Como você é exagerado.
Mário sorriu.
- Escuta, Joana, cê não quer subir pelas paredes hoje?
- Como assim?
- Subir pelas paredes... ficar cheia de amor para dar, entendeu?
- Entendi...
- Vamos para algum lugar?
- Para onde?
- Qualquer lugar. Você faz questão que seja em algum lugar específico?
- Para falar a verdade, não.
- Então vamos para o banheiro.
Quinze minutos de amor depois, ela sai cambaleante e ele sai todo suado do banheiro. Ninguém vê nada.
- Acho que tirei a sua virgindade.
- E acho que peguei a sua hepatite.
- Estamos quites?
- Sim.
***
Depois daquela noite de amor, Mário casou-se com Joana e nunca mais deixou de ser quem ele mais admirava: ele mesmo.

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