15 de dez. de 2007

O Anjo Pornográfico

Nelson Rodrigues gostava de se considerar um reacionário. Nas rodas de amigos, sempre criticava o esquerdismo extremo dos seus colegas. Poucos sabem que um de seus filhos foi perseguido pela ditadura militar por participar de um movimento revolucionário, o MR-8.
No livro "O Anjo Pornográfico" - Cia. das Letras, 424 páginas - Ruy Castro conta a emocionante história de vida do que é hoje considerado o melhor dramaturgo do Brasil. Ruy Castro, fã assumido do poeta, aproveita para contar não só a história de Nelson, mas de toda a família Rodrigues. Desde a profissão do pai como jornalista no Nordeste, até a sua vinda para o Rio de Janeiro.
A família Rodrigues, sem dúvida, teve grande importância no jornalismo e na cultura do Brasil. Mário Rodrigues, o pai, tinha seu próprio jornal chamado "A Crítica". Nele trabalhavam seus filhos, como Roberto Rodrigues, Mário Rodrigues Filho - mais conhecido como Mário Filho -, o próprio Nelson e, conforme os irmãos iam ficando mais velhos, também trabalhariam no jornal do pai.
Mário Filho também foi de grande importância. Por causa dele, o jornalismo esportivo é o que é hoje. Com o seu jornal de páginas rosadas, o Jornal dos Sports, Mário Filho conseguiu angariar recursos para construir o Maracanã. Promoveu os Jogos da Primavera no estádio e incentivou a criação do Campeonato Brasileiro como ele é conhecido hoje. Não é à toa que o estádio do Maracanã teve seu nome alterado para Estádio Mário Filho.
Nelson Rodrigues brilhou tanto quanto seu irmão, mas de outra maneira. Peça atrás de peça, foi criando um âmbito diferente, um teatro diferente. Sem estar ligado aos europeus (Nelson era um orgulhoso monoglota), construiu seu próprio estilo. Suas histórias trágicas na verdade demonstravam um romantismo sem par.
Nelson era um homem romântico. A sua vida consistia em estar sempre apaixonado. Mesmo casado, teve seus casos com outras mulheres (com a devida aprovação da mulher, na época em que isso era considerado comum). Mas era um homem sofrido. Doente, sofreu anos e anos com a tuberculose. No entanto nunca deixou de fumar.
O estilo de Nelson pode lembrar o dos ultra-românticos. Sempre apaixonado, sempre doente. Mas Nelson era diferente, pois conseguia viver suas paixões em vida.
Ruy Castro também fala bastante das obras não-dramatúrgicas do escritor. Dentre crônicas esportivas, textos que escreveu sob o pseudônimo de Suzana Flag e textos secretos, há ainda muito a ser lido deste intrigante homem. Uma obra que, sem dúvida, ainda deve dar o desgosto que as suas frases densas sempre causavam nas platéias. Castro está planejando o relançamento das obras do autor pela editora Cia. das Letras. Espera-se muito do que ainda há para vir.
Enquanto isso, vale a pena ler sobre este homem instigante que foi Nelson Rodrigues. Ele gostaria de saber que hoje há pessoas interessadas no que ele fez. A não ser que você seja mineiro, afinal o mineiro só é solidário no câncer, não é mesmo?

Nenhum comentário: