Era mais uma manhã friorenta na já pitoresca cidade de São Paulo. Com o frio, o paulistano tinha ainda menos disposição de remover o traseiro da quente e afável cama que o confortava e acalentava. Num bairro residencial, em uma rua da zona leste da cidade, um dos vendedores de rua fazia questão de todos acordar com o anúncio de seu tão requisitado produto:
- Olha o Ragu Tabaréu! Quem vai querer o Ragu Tabaréu? Olha o Ragu Tabaréu!
Alguns, que já estavam acordados, ficavam curiosos com o produto que o vendedor mostrava a todos com tanta ardência. Ele parecia feliz com os lucros que obtivera com a venda de tal produto, já que seu sorriso se abria de aba a aba. Os que ainda dormiam naquela pós-madrugada das 6 da manhã, irritados com o vendedor que fazia questão de berrar, já o censuravam e ao seu produto antes mesmo de vê-los. Um dos habitantes daquela rua gritava ainda mais alto, para provocar os ânimos dos dorminhocos:
- O que o senhor está vendendo?
- O melhor Ragu Tabaréu do mundo!
A curiosidade se espalhava. O que diabos seria aquele tal de Ragu Tabaréu? Que diabos seria tal objeto de desejo de tantos compradores? Que dúvida. O mesmo morador perguntara ao vendedor o que diabos era aquilo. Como resposta obteve a pérola:
- Ragu Tabaréu é Ragu Tabaréu! Quem comprou vai comprar sempre! O senhor quer um?
O homem, curioso como tal, pediu para o vendedor daquela peça tão adorada esperar um instante. Ele sai. Quando sai, percebe que está sendo olhado por toda vizinhança. Todos, que não se manifestavam e pareciam temer ver o produto, olhavam com extrema curiosidade para aquela cena. O homem vai até o carrinho de madeira velho e vê as peças ali dentro. Parece uma peça cúbica e branca. Parece sólida. O comprador pergunta:
- Nossa! É isso o tal de Ragu Tabaréu? Meu Deus! Nossa, você sabe que eu procuro isso há anos e nunca acho? Agora o senhor me traz aqui à porta da minha casa! Meu Deus, que alegria! Me vê uns vinte. Não interessa o preço. Aceita cheque?
- Sim! É claro! Depois que comecei a vender isso eu não parei mais de ganhar e até abri uma conta. Aceito sim!
- Está certo! Quanto vai ser?
- Hum... para o senhor que me pareceu legal eu faço por vinte paus!
- Nossa! Que barato! Muito obrigado, hein? Valeu pelo Ragu Tabaréu!
A vizinhança via aquele homem voltar para a casa trajando um pijama branco de bolinhas vermelhas. Ninguém notara que ele estava com aquele pijama ridículo quando ele saiu para ver o que se tratava o Ragu Tabaréu. Era impressionante o que as pessoas deixavam de notar quando estavam aficionadas. Entretanto, o interessante é que um morador, que vira toda aquela cena, ficara curioso quanto ao fato e também foi verificar o que se tratava. Ele chegou no homem, olhou o carrinho de madeira no qual ele abrigava aquelas caixinhas brancas, e perguntou:
- Qual a utilidade desse Ragu Tabaréu?
- Olha, tem várias coisas que você pode fazer com eles. O seu vizinho, por exemplo, sabe várias.
- Quanto custa cada?
- Olha, para o senhor, que é pretensioso, vou cobrar dois reais cada.
- Me vê cinco desses.
E esse homem, que trajava um pijama de uma cor amarela muito clara, que na verdade parecia brilhar no escuro, levou para casa mais cinco peças. Todos os vizinhos se espantavam com aquela cena. Ainda contando o dinheiro, o homem olhava novamente para a rua e, resolvendo andar um pouco, foi parado por um outro morador. Este lhe disse:
- Sou da casa ali da esquina! Eu ouvi você dizer que estava vendendo Ragu Tabaréu e vim correndo! Quanto está cada um?
- Olha, para você que é interessado eu vendo cada por cinqüenta centavos.
- Nossa! Então me vê quarenta logo! Você não sabe como o meu pai usava esses maravilhosos Ragus Tabaréu para quase tudo! Até para comer! Valeu, hein? Até mais!
Todos da rua ainda olhavam aquele homem de pijama vermelho com bolinhas amarelas. Ele voltava feliz da vida deixando cair algumas daquelas adoradas peças no chão. Ele voltou para pegar e parecia preocupado com o fato de que alguém pegasse aquela preciosidade da natureza. Entrou na sua casa e fez com que todos escutassem seu sorriso de araponga.
Muitos vizinhos daquela parte residencial da cidade estavam ainda abobados com o que viam. Muitos conheciam e pareciam precisar daquela peça tão requisitada. Era impressionante o que se via. Muitas mulheres já gritavam com os maridos para irem ver do que se tratava. Aliás já era visível uma mulher batendo no marido em uma casa. Mas a discussão parou quando outro homem saiu de outra casa. Ele disse:
- Oh, meu! Você fez a minha mulher me acordar com esse tal de Ragu Tabaréu. O que diabos é isso aí?
- Olha, Ragu Tabaréu é Ragu Tabaréu! Não tem uma definição própria, só que tem diversas utilidades e futilidades também, entende? Eu não vou te dizer que este é um sabão com "morecolor" ou que esse serviço contratou os anjos para falarem com o senhor. Você precisa comprar e avaliar.
- E quanto é o preço disso?
- Olha, para o senhor que é irritado eu vendo por quatro reais cada.
- Está certo. Me vê quatro disso aí!
E o homem, de um pijama laranja que, segundo vizinhos, ele usava para se comunicar com extraterrestres e, segundo as más línguas, para espantar sua mulher, voltava para casa com quatro Ragus Tabaréu.
Aí não teve quem resistisse. Saíram de suas casas diversas pessoas dispostas a comprar o Ragu Tabaréu. O vendedor, que fazia o preço de acordo com o cliente, dava preços diversos para cada um. O máximo que atingiu foi dez reais cada, com um homem que ele definiu como intrigado. Havia diversos Ragus a serem vendidos ainda quando o vendedor disse sabiamente:
- Preciso ir! Outras pessoas necessitam do meu Ragu Tabaréu.
Da multidão nada mais se ouvia do que o desconsolo de todos. Muitas horas mais tarde, as inúmeras pessoas foram à casa do primeiro comprador, que era um profundo conhecedor de Ragu Tabaréu. Naquela casa se encontrava o vendedor e mais três homens com seus pijamas ridículos e multicoloridos, além do adorador de Ragu. O carrinho estava na garagem e haviam diversos tijolos pintados de branco nele. Ainda assim, todos continuavam a usar os seus adorados Ragus Tabaréu.
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