Estúpido estava estúpido. Não sabia por quê exatamente ele estava naquele estado, mas estava muito estúpido. Foi até o banheiro e examinou o estado de sua escova de dentes. Percebeu que ela estava gasta e a examinou um pouco antes de escovar os dentes. Sua esposa que o observava à porta do banheiro fez um comentário:
- É, precisa comprar outra, né?
- Não, não precisa não. Eu vou começar a escovar os dentes com a língua e limpar azulejo com essa escova.
Dizendo isso, pegou a escova com pasta de dente e tudo mais e começou a limpar o azulejo do banheiro, enquanto ficava passando a língua nos dentes. Sua mulher, já acostumada com os ataques de estupidez de Estúpido, deixou ele se divertindo com sua estupidez desdita. A casa inteira já sabia: Estúpido era estúpido e não havia uma forma de fazê-lo mudar.
Chegando a cozinha, Estúpido se depara com a família. O dia estava quente e o sol entrava por todos os cantos da cozinha.
- Está quente.
- Não, é São Pedro fritando um ovo!
O filho mais jovem de Estúpido, já acostumado com a estupidez do pai, ainda riu da cara do pai com uma certa superioridade. Era incrível a capacidade daquele homem de não suportar o óbvio. Estúpido foi ver o que havia na geladeira e percebeu que não havia leite. Sem dizer uma palavra, pegou sua carteira e saiu de casa para comprar o leite que faltava para a família.
Chegando à padaria, comprou o leite rapidamente e saiu. Quando estava saindo da farmácia, Estúpido lembrou-se de comprar o cigarro escondido, coisa que fazia desde o casamento, escondido de sua mulher e de seus filhos. Comprou e colocou num dos bolsos da calça rapidamente e disfarçou com a camisa por cima. Saiu da padaria e então Estúpido ouviu um comentário de um colega seu, seu Manoel.
- Ei, Estúpido! Comprando leite para seus filhos?
- Não! Eu comprei leite para lavar a calçada!
Assim dizendo, Estúpido derruba o leite na calçada e começa a espalhar com uma vassoura que Manuel, vendedor de vassouras, carregava.
- Pronto, agora está limpo.
Estúpido saiu com apenas um litro de leite, sendo que tinha comprado dois. Sua estupidez causava-lhe certo ânimo, certa felicidade e dava-lhe certa força de espírito. Estúpido sabia como era estúpido, de corpo e alma. E gostava disso.
Chegou em casa com uma cara estúpida. Estúpido estava mais estúpido do que nunca. Colocou o leite em cima da mesa da cozinha e deixou sua mulher abrir o leite e fervê-lo. Quando o leite já estava na panela, sua mulher lhe diz:
- Vou ferver o leite.
- É claro. Suponho que você não vai deixar ele aí para evaporar para chover leite mais tarde.
Os filhos mais uma vez riram e sua mulher ainda soltou um sorriso alegre, como se dissesse: "te amo". Ele, que leu os pensamentos dela, ainda diz:
- É claro que você me ama. Afinal eu também te amo.
Uma resposta estúpida, mas amável, vinda de um estúpido. Sua mulher sabia que ele sabia ser amável, ao jeito dele. Mas sabia. Embora ainda assim parecesse um pouco estúpido. Mas estúpido não poderia ficar muito tempo naquilo. Ele tinha que ir trabalhar, ganhar seu dinheiro para sustentar sua mulher e seus dois filhos pequenos. O banco o esperava e Estúpido era o gerente.
Estúpido, então, se levanta da mesa e vai ao seu quarto se arrumar para o serviço. Pega o terno e rapidamente esconde o maço em um dos bolsos de dentro. Pega uma camisa simples e uma gravata de seda marrom com listas marrom-claro. Coloca a calça de linho e o terno leve, para dias de verão. Sua mulher entra no quarto e, sem querer, pergunta-lhe o óbvio:
- Já está se arrumando para o trabalho?
- Não. Para o Clube das Mulheres.
- Você não é tão sensual para isso...
Estúpido sentiu-se mal. Ele não sabia lidar com estupidez em assuntos sexuais. Então, rapidamente, com um gesto estúpido, saiu do quarto e foi à cozinha. Beijou seus filhos e disse-lhes adeus. Papai iria trabalhar. Os filhos logo compreenderam o que ocorria e, sem nenhuma pressa, continuaram comendo.
Estúpido se dirigiu ao seu carro e, como estava sozinho, resolveu ser estúpido consigo mesmo. Retirou a chave do carro e iniciou um monólogo.
- Não, eu não vou colocar a chave na fechadura da porta, na verdade eu vou usá-la como termômetro no meu cachorro. Não, eu também não vou ligar o meu carro, na verdade eu quero testar a parte elétrica da ignição. Não, eu não vou colocar a primeira marcha, na verdade eu estou fazendo isso porque eu sou estúpido. Não, eu não estou indo ao trabalho. Você não vê que isso é um foguete e que eu estou indo pra Lua? Não, eu não cheguei. Eu só parei aqui no estacionamento do banco porque é gratuito.
Estúpido chegara ao serviço. Sentiu-se pronto para mais um dia de trabalho. Sentou-se à sua mesa e esperou que o primeiro cliente viesse ter com ele e lá vem o primeiro. Ele chega com uma maleta e, sem dizer uma palavra, senta-se e abre a maleta. Lá era possível ver milhares de reais. O homem então diz:
- Quero abrir um conta.
- É claro. O senhor não iria querer fechar uma trazendo esse dinheiro todo aqui.
- Como?
- Nada, nada. Que tipo de conta o senhor gostaria de fazer?
- Qual é a melhor aplicação no momento?
- Eu acho que a longo prazo, a melhor aplicação é a poupança trimestral que não tem as garras do ICMS. O senhor tem alguma outra sugestão?
- O senhor é que está aí para me dar sugestões. Por que eu é quem teria que dar-lhe sugestões.
- Eu não sei. E o senhor? Sabe?
- Não, mas eu acho que o senhor é estúpido.
- Prazer, esse é o meu nome.
- O nome do senhor é Estúpido?
- Sim.
- Pois o senhor faz jus ao nome.
- Pode ter certeza que sim. O senhor vai aplicar ou o que?
- Bem, eu quero aplicar. Mas antes me diga uma coisa: vale a pena mesmo a poupança trimestral?
- Não. Se eu estou lhe dizendo que vale a pena é porque eu sou um otário e quero mesmo que o senhor enfie toda essa grana no commodities. É claro que vale a pena.
- O senhor é uma pessoa estúpida e convincente.
- É claro que eu sou uma pessoa convincente. Eu estou aqui para justamente convencer as pessoas a fazer o pior para elas e o melhor para mim e para o banco.
- O que?
- É isso mesmo.
- Mas o senhor é muito estúpido mesmo.
- Eu já não lhe disse que meu nome é Estúpido?
- Ora, o senhor que se dane. Me aponte outro gerente que eu não quero tratar mais nada com o senhor.
- Pois bem, fale então com o Gerente de Negócios. Ele está logo ali do lado. Boa sorte.
Estúpido estava sendo estúpido, realmente. Mas estava sendo sincero. A poupança trimestral, sendo aberta por ele, acabaria lhe trazendo comissões para o seu salário. Estúpido era estúpido, mas não tolerava a falsidade. Sabia exatamente como lidar com clientes que não entendiam o seu caráter estúpido de ser. Fazia isso enviando os clientes para o Gerente de Negócios, o Sr. Igor Norante, que não gostava muito de papo e sempre mandava os clientes enfiar a grana no commodities.
- Olá, Sr. Estúpido. Embora tenhamos tido algumas divergências, prefiro tratar do assunto com o senhor mesmo.
Estúpido era estúpido.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário