15 de dez. de 2007

A Estrela Solitária

Garrincha era descendente dos índios fulniô. A tribo fulniô acreditava que era necessário matar e comer os primogênitos de cada família para evitar futuros desastres.
Este jogador brasileiro, conhecido pela sua facilidade em driblar os adversários, tem sua história contada neste emocionante livro escrito por Ruy Castro. Em suas 536 páginas é possível conhecer toda a história de Garrincha, dos seus antepassados fulniôs, de seu pai, de sua casa na cidade de Pau Grande, de seu sucesso com as mulheres dentre outras coisas.
Mas e o futebol? Seria o futebol uma peça secundária nesta obra? Não, muito pelo contrário. Estrela Solitária - título dado em alusão à solidão de Garrincha em seu próprio brilho e ao seu time, o Botafogo - é uma biografia jornalística sentimental. Sentimental porque é notável que Ruy Castro sentira-se entuasiasmado ao falar de Garrincha. Cada jogada excepcional narrada por Castro neste livro parecia ter toques de euforia. Ruy Castro também é Garrincha.
Para entender o que levava torcedores de outros times a assistir os jogos de Garrincha, é preciso saber que até hoje não houve jogador de tal maneira excepcional. Nos cruzamentos, nos escanteios, nas cobranças de falta, Mané demonstrava imenso brilho. Inexecrável, eliminava zagueiros como quem mata formigas. O zagueiro que se levantava, coitado, corria o risco de cair no chão ou de ficar torto na frente do Mané.
Ruy Castro também aborda em seu livro que Mané nunca desprezara o adversário. Para ele, o jogo nada mais era que uma brincadeira, uma dança. Não fazia sentido fazer gols e ganhar o jogo. O ideal era brincar. Por isso vários dos seus colegas de trabalho reclamavam de seu estilo. Diziam: "Passa a bola, Mané!" E ele não passava. Preferia correr pela ponta-direita, entortar mais 3 ou 4 zagueiros e, quando estava de cara pro gol, era mais provável que voltasse para entortar mais uns 2 antes de fazer o gol.
Segundo Castro, para Garrincha os zagueiros não eram "João". Todos tinham sua identidade. Cada um entrava em cima de suas pernas tortas com menos ou mais violência. Ele sabia o nome de todos que enfrentava e a todos considerava. Um dia, numa entrevista, ele afirmou que achava que "todo mundo era João". Mas isso aconteceu anos mais tarde, depois de Mané passar por muitos problemas.
A parte mais interessante desta obra é o que diz respeito à vida pessoal deste jogador. Garrincha foi um pai descomunal. Não porque fosse um bom pai - o que de fato não foi -, mas por ter sido pai de mais de 10 filhos (sendo 8 com uma única mulher). Sua vida sempre se dividiu entre futebol, álcool e mulheres. As mulheres foram muitas. Tantas que nem Ruy Castro sabe afirmar. As partidas de futebol foram muitas. No final do livro, inclusive, há um índice com todas as partidas que Garrincha jogou, nos mais diversos times. O álcool foi a sua derradeira desgraça. Foi o que o levou aos maiores traumas de sua vida pessoal, tão bem contados nesta obra.
O trabalho biográfico é muito bom. As fotografias são de extremo bom gosto e retratam bem o Garrincha em suas mais diversas fases. O livro é altamente indicado não só para aqueles que gostam de futebol, mas para todos aqueles que apreciem uma boa história. Uma história emocionante sobre a Estrela Solitária que tanto brilhou por este mundo.

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