Já era tarde. Duas pessoas andavam de mãos dadas sem se olhar. Os passos firmes; o andar, rígido. A sola dos sapatos tocava o chão como uma marreta de madeira toca um prego. Era meia noite. Os olhos escuros miravam a ponta dos sapatos com a certeza de que um passo seguia o outro numa caminhada em alguma direção. Nada mais.
Um vulto escuro surge no céu. Os dois não se olham nem perguntam nada. Apenas andam de mãos dadas e em linha reta. Sobriedade, seriedade e, acima de tudo, negação. Negação de que as mãos dadas representam a união. Desenlacemos as mãos. Nos soltemos. Nos empurremos em direções contrárias. Isto feito, resolvem olhar o céu. Uma imensa aeronave lá está e observa tudo o que acontece.
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Acontece em qualquer relacionamento. Num determinado momento da vida as pessoas já não se olham e continuam de mãos dadas. Quando soltam as mãos resolvem olhar umas às outras e, não percebendo o que um dia houve em comum ou o que um dia acharam agradável, olham para cima procurando alguma coisa, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mesmo que seja um disco voador que, em nome da pesquisa científica (patrocinada ou não), viera a Terra para estudar coisas triviais como o relacionamento humano.
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A nave espacial os observou sozinha, como se tivesse vida própria. Eles, que desejaram a sua presença, esperavam que ela pudesse explicar toda a complexidade do relacionamento humano, desde o Amor Idéia até o Amor Sensual.
Talvez se Platão estivesse vivo não compreendesse como o Amor Idéia não dá certo. Ele talvez se surpreenderia com a falta de objetividade e de valor do Amor no ser humano nos dias atuais. Amor Mercado, Amor Virtual e Amor Real formariam o que no passado ele chamava de Amor Idéia. Rever sua filosofia pode não ser fácil. Platão morreria caso vivo estivesse.
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A nave espacial aproximou-se deles numa tentativa de cumprimentá-los e informá-los de sua missão. Um convite muito singelo. Aceitaram sem pestanejar. Deixaram-se levitar pela força antigravitacional como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo - isso é explicado pela natureza do ser humano que, quando abatido e contrariado, acha que tudo é normal - e entraram na astronave. Bonito. Lindo. Maravilhoso. Botões e luzes por todos os lados. Computadores de última geração. Redes interligadas, máquinas de luzes estranhas, objetos de formas duvidosas mas nenhum operador. De que adianta o equipamento se não podemos perguntar ao operador "pra que serve este botãozinho vermelho"? Pergunta esta recorrente no sexo logo após o casamento.
Só então é que surgem dois homenzinhos verdes que vieram para não contrariar a fantasia. Reafirmaram-na. Diziam ser marcianos também. Nada poderia ser mais desagradável. Nenhuma surpresa. Nenhuma novidade.
Com tudo isso, se olharam mais uma vez. A nave sumira. Não havia ninguém ali. Todos estavam dormindo à meia-noite menos eles. Esta era a única surpresa. A única novidade. Desenlaçaram as mãos. Soltaram um adeus baixo, um beijo frouxo, um abraço ralo e nunca mais se enlaçaram novamente.
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