15 de dez. de 2007

Entrevista - Fernando Alvarenga

Fernando Fild de Alvarenga foi atropelado quando dirigia uma moto por um ônibus que ultrapassou um farol vermelho. Passou por 39 cirurgias, 189 implantes de platina e 219 pinos e muitos transplantes de sangue. Brigou com a família e decidiu morar na rua. Descobriu que tinha adquirido o HIV durante o transplante. Revoltou-se e planejou um grande assalto. Foi preso. Virou budista na cadeia e agora é escritor. Um homem com uma história absolutamente diferente. Raramente diria-se que uma pessoa que pede dinheiro nos faróis de São Paulo pode falar 4 línguas além do português. Sentando num banco do pequeno McCafé do McDonalds da esquina da Al. Joaquim Eugênio de Lima com a Av. Paulista, Alvarenga concedeu-me uma entrevista sincera que fala sobre a vida, sobre política, sobre religião, sobre sociedade, sobre misticismo... enfim, sobre tudo. Ele ia falando e lendo um exemplar da Folha de S. Paulo sempre muito sereno, sem aumentar ou abaixar demais o tom de voz e sem mudar a intensidade do brilho de seus olhos. A sua entrevista foi gravada no ano de 2002. Pouco tempo depois Fernando acabou sendo preso, encontrado com pedras de crack. Muito do que ele disse pode ser fantasia de um homem maltratado pela vida. Mas certamente muitas lições de vida se pôde tirar de uma entrevista aleatória, feita às custas do acaso, com um sábio às avessas típico do cotidiano de uma grande cidade

Fernando conta uma trajetória de vida emocionante, em que nada acontece por acaso e ao mesmo tempo tudo é inexplicável. A entrevista durou uma hora. Nessa hora eu tive de tirá-lo de seu trabalho, que lhe rende o que a sociedade não é capaz de fornecer-lhe por si só. Ele não gostou muito, mas acabou aceitando fazer a entrevista.

Vale a pena conhecer este homem que se define assim: "Sou nada. Ao mesmo tempo, sou tudo".


O que é pedir?

Pedir é uma coisa insensata. Não se pede. Se corre atrás. Acho que as pessoas que pedem estão sofrendo de alguma coisa que nem elas sabem. Acho que não se deve pedir. Se deve correr atrás.

Você usa muleta, tem problemas motores nos braços... o que aconteceu com você?

Eu sofri um acidente de moto há 22 anos atrás. Infelizmente não foi minha culpa. Foi um motorista de ônibus. Ele atravessou o farol vermelho e me atropelou. Tem um processo na justiça faz 22 anos. Graças a Deus - como dizem as pessoas, eu não acredito em Deus, acredito nas pessoas - vou receber uma indenização no mês que vem. Estou contente, vou sair da miséria. Acho que é o seguinte: não sou revoltado, não sou recalcado. Sou deficiente, mas... não tem algo que me diz que eu tenho de ser otimista. Eu simplesmente sou.

Onde você mora?

Eu moro num hotel. Eu morava na rua. E aí eu percebi que se eu começasse a pedir dinheiro no farol eu podia arrumar 20, 25 reais para pagar um hotel. Faz 1 ano e meio que deixei de ser morador de rua. Estou morando num hotel.

E você trabalha nas ruas pedindo, quer dizer, esta seria sua atividade econômica. Qual é o seu ganho?

Infelizmente trabalho nos faróis. 60 reais por dia

60 reais por dia?

É. Por 3 horas de trabalho.

60 reais por dia em 3 horas de trabalho?

É isso mesmo.

Você fala bem, se pronuncia bem...

Lógico. Sou formado em Comunicação na FAAP, pela Unitau de Taubaté e fiz Pós-graduação na FGV. Mas não consegui emprego. Porque toda vez que passo num concurso eu perco a vaga pelo preconceito. Não admitem pessoas na minha situação. Mas não tem problema. Eu estaria ganhando de 32 a 42 reais por dia trabalhando como funcionário público e eu ganho 60. Portanto eu parei de lutar por isso. Eu tenho direito ao meu salário. Eu sei que o governo brasileiro é obrigado a assistir todos os deficientes, mas eu nem sei como recebo isso.

Quer dizer, a única razão de você não ter conseguido arrumar emprego até hoje foi o preconceito?

Na maioria das vezes o preconceito tem falado mais alto. Então, por esse tipo de preconceito, eu parei de procurar emprego. Hoje eu não preciso procurar emprego.

Quais concursos que você já prestou?

Eu já prestei 6 concursos aqui na Paulista. Dos 6 concursos que prestei em jornalismo, comunicação, marketing e principalmente no que eu sou especialista, comunicação visual. É uma coisa que vende muito, que tem um certo poder de vendas. Mas não tem jeito: o preconceito fala mais alto. Se eu estivesse empregado no meu campo, eu estaria ganhando 30 ou 40 reais por dia. E hoje eu ganho 60 no farol. Hoje eu não quero mais trabalhar na minha profissão.

60 reais por dia, em 30 dias dá 1800 reais.

Esses 1800 eu nem sei bem o que eu faço. Eu pago 25 reais do hotel, 5 reais de cachaça pois eu bebo todos os dias, 7 reais de comida e o resto fica para o dia seguinte.

Há quanto tempo você está vivendo nas ruas?

Há 10 anos. No hotel eu estou vivendo há 1 ano e meio, 2 anos. Estou há 10 anos fora de casa.

Você saiu de casa e não quer voltar de maneira alguma. O que aconteceu?

Não quero voltar de maneira alguma. Não sinto falta de ninguém da minha família, não gosto de ninguém da minha família, eu abomino qualquer tipo de família. Eu acho que família, para mim, é cachorro, gato e galinha. Não gosto de família. Família sempre tem sempre aquela tendência de criticar, de mandar. Você tem que fazer isso, você tem que fazer aquilo. E eu não gosto desse tipo de coisa porque eu sou auto-suficiente. Não preciso de ninguém para mandar em mim. Eu estou há 10 anos longe da minha família. Não sei se minha mãe morreu. Não sei se meu pai morreu. E nem quero saber. Para mim não fará a mínima diferença. Só sei que está perfeito para mim assim.

É. Parece estar perfeito para você. Nas empresas, estagiários ganham de 300 a 500 reais. Você ganha mais que isso. O que você pode dizer da sociedade, que sustenta você de maneira até... justa, talvez?

Veja bem, companheiro, quem sou eu para condenar ou julgar a sociedade? Eu não acho nada da sociedade. Mas se eu tiver de falar alguma coisa da sociedade, teria de dizer que a sociedade é extremamente injusta, complexa, fashion, só pensa na moda, vê alguma coisa assim, gosta e quer consumir. Se não gosta daquilo, a sociedade repele. A sociedade para mim é uma coisa normal. Eu não ligo para ela, no entanto. Eu estou fora dela. Ao mesmo tempo eu preciso dela, pois é ela que me ajuda. Existe uma coisa muito interessante. Nunca aconteceu deu chegar num farol e sair duro. Nunca saí duro. Eu sempre arrumo o meu dinheiro. A sociedade é hipócrita. Hipócrita demais. Mas eu não posso ficar criticando muito, então... viva a sociedade! E viva a sociedade alternativa, como diria Raul Seixas.

Você falou que são 8 anos de rua. Você deve ter visto tanta gente envolvida com narcotráfico, crimes, assassinatos...

Eu já vi muita gente ruim. Já vi muita gente usar drogas. Já vi muitas mortes, já assisti a muitos homicídios. Mas eu nunca entrei nessa. A única coisa que eu fiz foi beber. Beber, beber e beber. Mas eu nunca entrei nessa. Eu daria o meu recado para quem der valor a esta entrevista, eu falo assim: "Oi amigo. Tudo bem com você? Hoje eu dei sorte de ganhar uma moeda? Não? Muito obrigado. Então, que você tenha uma boa noite de descanso e quem sabe amanhã melhore e você pode até me ajudar. Tá bom?"

Agora... droga? O nome já está dizendo: é uma droga. Eu não gosto. Agora... tem uma coisa que me emociona muito. Eu tenho tido essa experiência. Aliás, eu acho que até já tirei diploma de farol porque tem pessoas que dizem não e no dia seguinte elas dão.

Até aconteceu um fato inédito esses dias. Um senhor, dentro de uma BMW preta Z3 conversível parou do outro lado da rua, buzinou, me chamou e disse assim: "Olha, eu vou te dar uma moeda de 1 centavo. Mas não é para gastar tudo isso de uma vez, hein?". Aí eu olhei bem para ele e disse assim: "Meu amigo, olha, coincidência. Eu estou com uma moeda de 1 centavo no bolso faz 2 dias e não consigo gastar essa fortuna. Vamos fazer o seguinte? Eu vou deixar as 2 moedas com você. Quem sabe você sabe o que fazer com elas." Aí ele disse: "Eu sou psiquiatra e psicólogo. E eu só queria medir a sua raiva. Pelo seu bom humor, vai levar 10 reais." Quando ele me deu os 10 reais, eu virei as costas e um cara me apontou um revólver e pediu os meus dez reais. Então veja: aqui se ganha, aqui se perde. Entendeu? Mais ou menos? [risos]. Qual a próxima?

Até você é assaltado?

Com certeza. Eles não poupam nem a gente.

Quantas vezes você já foi assaltado?

Várias vezes.

Você vive sempre nesse esquema de perdas, ganhos, perdas, ganhos. O que é a perda para você?

A perda? Nada. Para mim a perda não significa nada. Eu nunca perdi nada. Eu nunca tive nada. Como eu vou perder? Se eu tiver 10 reais e perder 10 reais não vai fazer a mínima diferença. Eu não perdi nada. Eu vou lá e arrumo de novo. É simples. Perda é muito relativo. É como quando você perde alguém. No caso, para você, poderia valer alguma coisa. Para ela, para o outro, para qualquer pessoa. Para mim não. Eu não gosto de ninguém. Eu não tenho amor por ninguém.

Nesses anos todos você nunca se relacionou com ninguém?

Sim, claro. Como não? Eu tenho 4 filhas, 4 netas e 1 bisneta. Lógico.

Quantos anos você tem?

51.

Não parece.

Mas eu tenho. Quer que eu saque os meus documentos? Tenho, 51.

Você acompanha política, economia...

Com certeza. Todos os dias. Eu navego na Internet, também.

Do que você gosta?

Eu vou assistir ao Roger Waters, o cientista do Pink Floyd [Fernando aponta para uma foto de Waters no jornal]. Eu gosto muito de Rock and Roll. Eu gosto muito de conversar sobre assuntos bons. Eu gosto de mulheres bonitas. Eu gosto de papos agradáveis. E eu gosto de pessoas agradáveis. Tirando isso são poucas coisas que eu gosto. Tirando isso, tem poucas coisas que eu gosto. Mas tem uma coisa que eu gostaria de falar. A gente consegue as coisas quando a gente faz por onde. Quando a gente corre atrás. Muita gente vive dizendo "Graças a Deus", ou "Se Deus quiser". Do céu, eu particularmente, e você também, nunca vi cair nada, né? Então, eu acho que quando a gente vai atrás a gente consegue. Essa é a minha meta, minha sina. Mais alguma pergunta?

Claro. Você fez Comunicação na FAAP. Foi há quanto tempo isso?

Eu fiz 4 anos de Comunicação na FAAP, especialização de Jornalismo. Fiz um ano de pós-graduação na Unitau de Taubaté.

Você é de Taubaté?

Não. Eu sou de Campos de Jordão.

Região do Vale do Paraíba?

É. Mas eu nunca consegui emprego. Nunca consegui exercer minha profissão.

Você se formou em Comunicação já faz bastante tempo, então?

É. Eu estou com 51. Faz vários anos já.

Você está do lado de uma faculdade de jornalismo. Será que isso não tem a ver com o que você estudou? Será que você não quer conversar com os alunos daqui? Com os professores?

Conversar com alunos seria extremamente interessante, mas trabalhar, não. Já perdi aquele pique, aquele clima de trabalhar com jornalismo. Não vai me dar o mesmo dinheiro que eu ganho no farol.

Muito lúcida e interessante essa declaração.

Muito obrigado. É... eu prefiro ser lúcido a ser omisso, entendeu? Eu abomino dois tipos de pessoas: as omissas e as mentirosas. Eu não consigo ter um relacionamento com esses tipos de pessoas. Como eu não consegui exercer a minha profissão, para mim pouco importa. Agora não preciso mais dela mesmo. Então está perfeito, está pela ordem. Hoje eu sou uma pessoa de "pouca idéia".

E você gosta muito de Rock, pelo que eu vejo.

Eu gosto, mas não é só rock. Eu gosto de rock, de blues, de reaggae. Eu gosto de música clássica, Beethoven, Stravinsky. Eu gosto de coisas boas. Gosto de doce, gosto de quindim...

Você pediu as minhas pilhas antigas que eu troquei do meu gravador. Onde você irá usá-las?

É, eu tenho um amigo. O único amigo que eu consegui fazer. É um radinho de pilha bem humilde. Ele tem um fone. Então eu tenho de ter pilhas para poder escutá-lo. E ele é o meu único amigo. E tem também algumas mulheres [risos]. Eu acho que eu sou meio desconfiado. As pessoas se aproximam de mim e eu já acho que elas querem me tirar algo.

Como eu me aproximei de você e quis tirar de você esta entrevista?

Não, você está na sua. Você está fazendo o seu trampo. Você está procurando alguma coisa interessante. Eu espero que esta entrevista seja interessante. Eu sou um morador de rua. Eu sou ninguém. Eu sou um nada. Ao mesmo tempo eu sou tudo. Eu falo quatro línguas além do português...

Quais línguas você fala?

Eu falo francês, inglês e espanhol. O chinês eu consigo ler um pouco. Gosto muito do francês. Gosto um pouquinho só do inglês. Eu tenho uma neurose muito grande com essa língua. É a neurose dos americanos, porque eles têm a mania de se envolver em todos os problemas do planeta, o que eu não acho certo. Eu achei muito bom aquele vazio que existe hoje no World Trade Center. É uma crítica. Está lá no jornal: vão colocar dois fachos de luz azul por 22 dias em homenagem aos mortos. Mas veja bem: quem pode combater o terrorismo? Ninguém. Nunca se sabe onde ou quando vai ser o próximo ataque terrorista. Mas voltando ao assunto: eu gosto muito disso. Eu aprendi a ser uma pessoa muito reservada, embora muito sozinha. Eu acho que a solidão faz isso. Mas... o interessante disso tudo é: você sabe porque eu consigo ganhar 60 reais por dia. Você não sabe, né? Eu vou te contar um segredo.

Antes eu vendia bala, vendia chiclete, vendia caneta. Então eu vendia no farol. Me davam 1 real mas não queriam a bala. Me davam 5 reais mas não queriam o chiclete. Me davam 10 reais, mas não queriam a caneta. Me davam 20 reais e não queriam nada. Então eu parei de comprar a mercadoria. Passei a vender simpatia. "Oi, querido. Tudo bem? Hoje você vai me ajudar com uma moeda? Vai? Muito obrigado. Tenha uma boa semana, muita saúde para você, viu. Tchau. Vai com Deus." Agora aconteceu um fato muito interessante uma vez. Uma senhora me deu 5 reais e eu falei assim: "Querida, Deus abençoe". Aí a senhora me tomou a nota! Então eu disse: "Não. Peraí, querida. Você já tinha me dado a nota. Portanto, a nota já era minha. Você tomou? Não estou entendendo." Então ela disse: "Não fale nesse nome nunca mais para mim." Aí eu falei: "Ah... você não gosta de Deus? Perfeito. Desculpe. Eu falo isso apenas por mera formalidade. Eu também não gosto." [risos]. Mas de brincadeira, entendeu? Aí ela me devolveu os 5 reais. Quer dizer, você nunca sabe quem é que está ali. É uma coisa muito complexa. No farol você tromba com todo tipo de pessoa

Será que ela era satanista?

Não. Eu acho que ela era... como é que é mesmo. Peraí que eu me lembro. É... ela era meio judia, sabe? São judeus entendeu? Ela era judia. Judeus são assim!

Tudo bem. Mas agora chegou a minha vez. Eu quero te fazer algumas perguntas. Por que você escolheu esta profissão?

Para conhecer um pouco da sociedade, estimular políticas de acesso às oportunidades...

Política? Nossa, não brinca. Eu vou lhe confessar uma coisa: eu nunca votei. Nem sei como é a urna antiga, nem a nova urna eletrônica. Eu não conheço, nunca vi. Você sabe que no Brasil o voto é obrigatório, não é? Em muitos países do mundo não é. Mas aqui é. Eu acho que você deveria fazer assim: não vote. Espere passar as eleições. Aí você vai lá no Tribunal e paga uma multa porque você não votou e não justificou. Você sabe quanto custa?

Não.

Não? Eu vou lhe dizer quanto custa. Custa 6 centavos. É bem melhor pagar 6 centavos do que se arrepender por votar numa pessoa e essa pessoa te deixar na maior neurose. Eu já tive de aguentar Luiza Erundina. Estou tendo de aguentar Marta Suplicy, que está acabando com São Paulo. Espero que a candidatura da Roseana Sarney seja impugnada hoje. Vamos ver nos jornais amanhã.

Não, meu. Não é assim. Política é um negócio sério. Cuida dos direitos do povo. Não é uma brincadeira qualquer. Tem crianças, tem jovens, tem adultos, tem adolescentes. A minha esperança é que os jovens de agora, por exemplo, essas crianças que frequentam o McDonalds, que frequentam as bancas de jornais, sejam consequentes. Que sejam absolutamente coerentes. Que façam uma política verdadeira. Uma política saudável. Você sabia que em Praga, há pouco tempo, o ex-presidente foi assassinado em praça pública? Para todo mundo ver? Pode procurar que você vai comprovar. Ele foi assassinado em praça pública. Você sabia que nas Filipinas, a mulher do ex-presidente Marcos era conhecida como a mulher dos 1000 pares de sapato? Quer dizer, as pessoas usam a política para se enriquecer. Não é isso. A política é um instrumento sofisticado para ajudar alguém. Você não tem que ser político para ganhar dinheiro, mas para ser alguém.

Eu me referia ao político pensando em Aristóteles. Quando ele fala que o homem é um animal político...

Conheço bastante Aristóteles. Na verdade ele era o avô. Depois veio o filho e depois o neto. Eu conheço bastante filosofia e psicologia. Você já leu alguma coisa de Marilena Chauí?

Já.

Você sabia que ela entende tudo disso? De filosofia ela é mestre.

Você a conhece?

Eu a conheço. Eu a conheci no Jô Soares [risos]. Eu a conheci numa entrevista sobre livro de receitas. Acredita? Receitas. Ela entende de tudo. Marilena na verdade foi minha professora na FAAP. Ela me disse assim: "Fernando, olha, política não é para qualquer um." Filosofia é muito importante. Mas a melhor filosofia é a das causas e efeitos. Toda ação tem uma reação.

Isso em sânscrito é chamado de "Kharma".

[risos] Compreendeu? Toda causa tem um efeito. Eu acho que se se pensar bem, se descobre que está tudo errado.

É. Parece que falta lógica em tudo o que vemos, não é? Parece que falta o uso perfeito da razão em tantas coisas que nos parecem claras...

Nada é lógico por que? As pessoas não pensam no lógico. Elas pensam nas emoções, ambições, interesses individuais. Como dizia Sartre: "É melhor ser alguém do que ser alguém. Existem pessoas e pes-so-as." É simples isso. Eu não preciso dizer por quê. Eu acho que quem estiver lendo essa entrevista vai entender o que eu estou falando. Tem que existir um pouco mais de respeito, um pouco mais de carisma. Hoje tudo é na base do "tranco", não é? Eu acho que isso não existe. Ainda é fundamental o respeito mútuo. Eu, como eu disse há pouco, vendo simpatia. Ela pode não me dar dinheiro hoje, mas amanhã ela pode me dar. É como o cara da BMW. O cara me deu 1 centavo e disse para eu não gastar tudo de uma vez. O que você acha que eu deveria fazer? Xingar? Era o que ele queria que eu fizesse. Ele estava me testando. Eu respondi à altura. Disse: "Não, querido. Não vou gostar. É um dinheiro ingastável. Vou deixar com você". E ele disse que eu sou uma pessoa de bom humor. É isso.

Você deve ter muitas histórias para contar. Muitas histórias urbanas...

Tenho. Tenho bastante. Mas nenhuma que as pessoas merecessem ouvir. São coisas sujas, inóspitas e eu não gostaria de falar sobre isso.

É terrível pra você?

Não é terrível para mim. Será terrível para as pessoas. Eu prefiro que essa entrevista fique nobre. É uma coisa que eu não gostaria de falar. Coisas pelas quais passei e já estou longe.

Você tinha falado que iria lançar um livro.

Eu já o tenho todo escrito. São 66 capítulos. É uma história extremamente interessante, alucinante. É uma história do pique "Paulo Coelho". Carlos Castañeda. Lobsang Rampa. Você não quer parar mais.

São todos autores místicos.

A história que eu estou contando é mística, mas verdadeira. Nada romântica. Extremamente violenta. É muito sangue, muita coisa chata, muita coisa boa, muita coisa nobre, muita coisa desinteressante. Muito desprezo, acima de tudo. Porque na rua a maioria das coisas são desprezo. Você passa numa BMW e você tem muita grana. Nem olha para a minha cara. Simplesmente vira a cara, faz de conta que eu nem existo e vai embora. Aí foi o budismo que me ajudou a escrever.

Você é budista?

Sim, sou budista há 9 anos [nesse momento Fernando começa a falar algumas palavras em chinês].

Zen Budismo Japonês?

Chinês.

Mahayama? Qual escola?

A escola Chinesa de Nitiren Daishonin (1222-1282). Que foi o homem que propagou o budismo na China. O budismo nasceu na Índia. Começou com Sidarta Gautama, que era o Buda Sakyamuni. Sakyamuni descobriu toda a técnica do Budismo. Ele foi um pouco pessimista e um pouco omissor: ele não ensinou para ninguém. Foi então que chegou o jovem Nitiren Daishonin [Não tem escrita correta em português]. Foi este jovem que propagou o budismo para todo o mundo.

Você vai a templos?

Eu vou aos templos. Eu perdi o meu Sutra de Lótus que é um livrinho com 195 páginas que é resumido em 18 páginas em Chinês. Depois de 9 anos, ainda bem, agora eu estou conseguindo ler chinês. Eu falo as orações do budismo em chinês.

Você aprendeu chinês no templo?

Não. Na cadeia.

Onde?

Na cadeia.

Você esteve preso?

Durante 6 anos e 8 meses.

Por que?

Eu planejei um assalto. Assaltamos uma base de blindados e roubamos 98 carros-fortes. Aí conseguimos a quantia de 1 milhão e 695 mil reais. Estávamos bem, mas um cara entrou em cana e entregou todo mundo. Foi todo mundo para cadeia.

Mas existem mestres budistas na cadeia?

Existiam vários mestres presos na cadeia.

O que é o Sutra de Lótus?

É a bíblia do budismo chinês. Eu preciso comprar novamente o meu sutra de lótus. Eu adoro budismo e adoro filosofia oriental. Eu vivo a filosofia oriental. Eu sou soropositivo há 19 anos e não morri ainda. Não tomo nenhum remédio e não morri ainda. Acho que é pelo budismo. Adquiri o HIV depois dos transplantes que tive de fazer. Fiz exame há três meses e o meu sangue está bom, bem como o meu estado emocional, físico e psicológico.

Você foi atropelado há 32 anos, não é?

Sim.

E foi há 31 anos que você saiu da FAAP?

Sim.

Me conte a sua trajetória de vida.

Minha trajetória foi assim: eu caí de moto, fiquei em cadeira de rodas, virei recordista de pinos e platinas. Tenho 179 platinas e tenho 219 pinos. Todos acima de 20 centímetros. Você mesmo pode ver e comprovar vários.

Você pegou HIV na transfusão?

Peguei na transfusão no Hospital das Clínicas. Muita gente pegou o HIV ali.

Você foi um dos primeiros a contrair o vírus. A AIDS foi constatada em 81, não é?

Não. Foi em 80. Eu fui um dos primeiros do Brasil a contrair o vírus. Inclusive eu estou esperando para receber indenização da Viação Bola Branca, dona do ônibus que me atropelou.

Mas você pode falar desde sua infância?

Ah... um garoto normal que cresceu, estudou, foi atropelado de moto... depois que eu fiz as 4 primeiras cirurgias, e eu fiz 39, eu precisava da minha família para assinar o termo de compromisso para passar a AACD e fazer cirurgias para poder voltar a andar. Eles não tiveram fé em mim. Eles achavam que eu tinha muita sorte por não ter morrido e, por não ter morrido, eu deveria então ficar na minha. Não tinha que voltar a andar. Foi então que rompi com a minha família e fiz todas as cirurgias e todas as colocações de pinos Assinei o termo de compromisso sozinho. Depois descobri que tinha AIDS. Resolvi partir para o assalto. Fui preso, cumpri 6 anos e 8 meses. Me arrependi. Então eu mudei completamente. Hoje, se eu vejo dinheiro caindo do seu bolso eu lhe aviso. Aconteceu tudo isso. Ninguém sabe explicar esse tipo de coisa. Aí eu saí. Estou na rua. Não tenho onde morar, mas pago 25 reais de hotel. Não uso mais drogas, nem nada. Já fumei maconha durante um ano na cadeia, mas não na rua. E, sei lá, hoje em dia na Europa já está legalizado na Holanda, na Islândia, na Suécia... lugares em que eu estive com o meu pai na Europa e vi como funciona. Na época eu tinha aquela coisa com o meu pai. Não vejo o meu pai há muito tempo. Nem quero vê-lo. Sei que é o seguinte: tenho 4 netas lindas, 1 bisneta de 7 meses. Minha neta mais nova mora comigo. Eu levo-a para a creche de manhã e pego-a de noite. Ela tem três aninhos. Comprei um peniquinho para ela mas ela não está usando. Ela gosta de colocar o penico na cabeça [risos]. Ela não quer usar, mas eu vou ensiná-la direitinho. Inclusive, eu vou sair daqui e vou passar na Farmais e comprar uma fralda de 10 reais e 99 centavos [risos]. Ela tem 3 aninhos, tem que ter paciência. Eu me sinto o cara mais feliz do mundo. Não tenho nada para reclamar. Eu sou um cara extremamente feliz. Não tenho nada para reclamar. Sou um cara normal.

Você, como budista, alcançou o nirvana?

Quase. Quase. Quase. Eu procuro. Eu acho que vou encontrá-lo próximo da minha morte. Eu acho que o Nirvana só existe na morte. É a luz, não é? O espaço infinito, a luz...

Sidarta Gautama encontrou o nirvana vivo, não?

Na verdade, Sidarta Gautama é um cara que eu não gosto muito. Teve uma conferência sobre budismo em São Paulo bastante séria. Existe um paulista que vive na Índia, num monastério, e eu disse para ele: "Não acredite em mentiras". Eu falo, com toda a convicção, que Sidarta Gautama mentiu, omitiu, não propagou. Ele preferiu ensinar Nitrin-Dae-Shun-Gui. Após Sidarta Gautama ter desaparecido, Nitrin propagou. O Sutra de Lótus explica toda essa história. Existe um livro chamado Terceira Civilização. Muito bom. Se você ler, ficará impressionado com o otimismo deste livro. Quanto ao Gautama, ele foi um pouco "mentiroso".

Buda, no Dhammapada, fala que o Dharma é o Buda. O Dharma é a ética. Buda acha que o Nirvana vem através da ética. Isso tem muitos significados. Não sei se foi uma mentira...

Não diria mentiroso. Eu diria que ele omitiu os ensinamentos e os transmitiu apenas a Nitrin-Dae-Shun-Guin. Eu achei muito bom. Depois que Nitrin viu que Sakyamuni sumiu, ele propagou.

Fale mais sobre o seu livro. Qual é o tema dele?

Fala sobre a verdade da vida humana. Fala sobre cadeia...

Autobiográfico?

Não. Ele fala sobre os dias das ruas. Eu o fiz a mão e agora já passei para o computador. Ele está pronto para ser editado.

Vai ser editado?

É... a Editora Abril Cultural me prometeu, mas eu costumo não acreditar em ninguém. Eu só consigo confiar depois que eu vejo que é verdade. Veja bem, as pessoas tendem a enganar. Às vezes é uma coisa de família. Hereditário. Mas esse livro conta uma história interessante, dá dicas sobre a vida. Diz que você deve ser rápido, ligeiro. Que você não deve falar tudo, sobretudo para todo mundo. Ele conta as experiências pessoais que eu passei, mas não é autobiográfico. Ele tem a ver com o que eu vi, com o que eu constatei. Mas não conta a minha história. É uma história de rua, de cadeia e depois novamente de rua. Conta o que acontece na cadeia e na rua. Na rua, principalmente a de madrugada. Inclusive está no livro uma descrição sobre o "rapa". Você sabe o que é o "rapa"? Imagine que você, assim como você está, está sem dinheiro para voltar para casa e você resolve dormir na rua. Então você pega um papelão e dorme no chão. Aí vem a Guarda Municipal e leva o papelão e deixa você dormindo no chão. Eles levam as flores que você está vendendo. Só porque você não está cadastrado na prefeitura. E, se bobear, te dão coronhada, te batem. E eu tenho um problema grande com a Guarda Municipal porque ela não é treinada. A Polícia Militar de São Paulo é treinada. Sabe usar arma, sabe abordar as pessoas e tudo o mais. Mas a Guarda Municipal tem policiais não treinados, que mal sabem atirar, só sabem bater. Não têm instrução, não têm superior, não têm colegial, não tem ensino básico, são uns inconsequentes.

Eu tenho tudo isso no livro. É uma história muito interessante. Eu espero que os diretores e editores cumpram com a promessa que me fizeram. Leram o meu livro. Acharam interessante. Fizeram várias perguntas... espero que eles cumpram com aquilo que eles estão me prometendo. Mesmo porque existem várias outras editoras. Sei que deixei na responsabilidade deles e... por enquanto eu estou confiando. Eu costumo não confiar em ninguém. É assim que eu vivo, é assim que eu sei ser. Pela índole deles, acho que pode dar certo. Se não surgir esta oportunidade, sei que o meu livro é interessante e sei que muita gente pode se interessar e ele poderá ser editado. E eu já tenho mais dois livros com outros estilos diferentes.

Você tem uma página na Internet?

É, eu não tenho uma página. Tenho algumas coisas na Internet. Eu troco emails com europeus, egípcios e japoneses. Eu acesso Internet aqui mesmo nesse McDonalds ou no outro Mac. Em qualquer lugar que tenha. Não tenho em casa, mas tenho ao alcance.

Essa aqui é a minha amiga Lílian [é a atendente do McCafé] Ela fez aniversário ontem. De ontem para cá ela fez 18 anos. Já é maior de idade...

Maior é com 21...

Ah é. Maior é com 21. Você ainda não é maior. Mas já pode dirigir e votar. Não vai fazer cagada, por favor [risos].

Bom, eu sou adepto a qualquer tipo de papo, gostaria de falar com pessoas interessantes... mas é assim: sou meio invocado, meio neurótico, sou paranóico. Mas adoro conversar. Gosto de idéias sadias. E... é isso.

Obrigado pela entrevista.

Nada...

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