Aristóteles fala em Poética que a comédia era a mímesis de gentes inferiores. A comédia seria o gênero mais próximo do grotesco, um defeito ingênuo e sem dor. Assim são as máscaras cômicas usadas para representá-la.
No entanto a comédia está além do grotesco. O ato de rir enuncia o que é ou não comédia. Quando vemos alguém caindo na rua, tropeçando numa ingênua (e grotesca) casca de banana, rimos. É claro, surgem outras preocupações: estaria o acidentado machucado? Muitas vezes, quando caímos nesses acidentes da vida, rapidamente nos recompomos, tentando eliminar os vestígios deste triste momento. Invariavelmente rimos de nós mesmos. Da nossa situação. Naquele tênue momento somos crítico e criticado simultaneamente.
Entre os gêneros artísticos temos o drama, a tragédia e a comédia. O drama reflete nossas emoções. É uma exposição de sentimentos, de dores, de amores, de sonhos que se misturam à realidade. O drama está no mundo da emoção. Temos nele presente todos os principais sentimentos: o medo, a dor, o amor, o desejo. Está presente na humanidade desde a Idade Média, através do latim vulgar, o romanz.
A tragédia é mais intensa pois reflete o confronto entre o mundo das idéias e o mundo real. Na tragédia sempre temos uma fuga de um destino predeterminado do qual não se pode escapar. Sabe-se, desde o princípio, que o final é trágico e, geralmente, fatal. Na tragédia criamos um mundo ideal (o conceito de Maya, ilusão em sânscrito) como uma casca de um mundo real limitado em todos os cantos por uma força chamada destino.
Já a comédia é o gênero mais inferior dos três, não há dúvida. Aí Aristóteles acerta. Mas a dimensão do inferior não pode ser interpretada como menos interessante. Que dirá menos importante. É de baixo que observamos as coisas maiores. Na comédia temos a crítica. Na crítica temos o discernimento. No discernimento temos a organização do mundo, na maneira que ele é. E com a crítica, além de percebermos um mundo real e verdadeiro, abrimos espaço para um mundo melhor.
Crítica dos costumes - Todos os dias observamos coisas que nos fazem rir. Vivendo em grandes cidades fica difícil deixar de rir de tantas coisas engraçadas diante de nossos olhos. Algumas são trágicas e cômicas ao mesmo tempo, criando a situação paradoxal do tragicômico.
O que fazer ao observar a batida de um carro por um motorista desatencioso? Rir, é verdade. Por mais que ele tenha machucado uma perna ou um braço, muitas vezes notamos sua desatenção e sua estupefação diante do acidente que provocou. As explicações são então um tanto quanto complicadas. Lembro-me de uma vez em que o filho ia aprender a dirigir com o pai. Acontece que, nas leis vigentes do país em que tudo isso ocorria, era proibido a menores de 18 anos dirigir - ao passo que era permitido votar, o que é interessante e dá vontade de rir. O filho, inexperiente, em movimento mais brusco na troca de acelerador com embreagem, dá uma ré e acaba por bater o carro do pai contra um poste. Um acidente simples, ninguém saiu machucado - exceto o carro.
Ali, diante da tragédia do acidente, pai e filho se olharam e se desesperaram. Pensaram no dinheiro que aquilo tudo representava e quase choraram. Mas não conseguiram. Um riso nervoso era tudo o que podiam dar. A seguradora não iria cobrir um acidente em que o filho menor dirigia o carro. O pai então inventa uma história esdrúxula na explicação que reproduzo a seguir:
"Estava eu na rua Tal, do bairro Tal, cidade Tal do Estado Tal dirigindo vagarosamente. Foi então que mais que de repente surge uma enorme pick-up virando a rua Tal pela avenida Tal que me causou grande susto. Para evitar o choque, disparei a marcha ré, fazendo com que o carro virasse e atingisse o poste".
Trágico e cômico. Tal descrição do fato ainda hoje causa risos a espectadores da vida aos quais essa história é contada. Alguns chegam a chorar de tanto rir e eis aí mais um paradoxo.
Mas temos outras histórias. Inocentes, como um riso de criança. Certa feita estava um jovem acompanhando uma criança de uns dez anos à beira da praia. A praia era uma dessas do litoral sul de São Paulo. Tratava-se de um lugar urbanizado, cheio de avenidas e calçadões em que jovens e adultos andavam civilizadamente, alterando a floresta que antes tinha seu lugar por ali. Pois bem, o menino, como tantos outros, fazia buracos na areia. Em determinado momento encontrou água em seu buraco, o que o fez ficar espantando. Uma idéia veio à sua cabeça e ele a expôs ao jovem ao seu lado: "Vamos cavar um buraco bem fundo até chegarmos no cimento?"
O jovem se assusta: como poderíamos chegar ao cimento da natureza? O menino, indiferente, não entendia as gargalhadas que lhe dirigia o jovem. Perguntou mais uma vez, ao que o jovem respondeu com mais gargalhadas. Era impossível parar de rir. Estava aí feita a crítica à noção de natureza do homem urbano, para quem tudo é feito pelas mãos humanas.
O que dizer da natureza do cotidiano? Quantas críticas não são feitas em ambiente de trabalho, quando os homens exercem suas funções. As piadas, tão comuns, servem de crítica generalizada ao próprio papel deles na sociedade. Mas a figura do chefe é, de longe, a mais festejada. Os funcionários muito de vez em (sempre) quando lhe imitam os trejeitos. Alguns gaguejam, outros falam fino demais, alguns trocam palavras, outros têm tiques nervosos. Enfim: são todos humanos e, por esta definição, todos iguais. A diferença social na relação empregador-empregado não é empecilho para que a comédia ocorra. Ao contrário. A comédia é um instrumento para que a crítica desta relação ocorra livremente.
A comédia não perde sua função. Estabelecer a crítica é sorrir. Ao detectarmos na natureza (ou na sociedade) algo como é e vislumbrarmos como deveria ser, soltamos um leve riso de compreensão. O que dizer do riso de Arquimedes seguido da expressão "Eureka!" ao deitar-se numa banheira e descobrir como saber se a coroa era de ouro maciço ou não? Uma crítica formada e inconformada que se soltou: como não pensara nisso antes?
A comédia dos costumes. Ora, porque continuamos em nossas rotinas todos os dias, sabemos o quão trágica e predestinada ela é e ainda assim prosseguimos? Em primeiro lugar, não teríamos noção dessa dimensão trágica se não tivéssemos a comédia. É ela que nos faz lembrar e sorrir das coisas cotidianas que fazemos todos os dias, todos as semanas, todos os meses, todos os anos. Não é engraçado a cada ano juntarmos família para comer e comemorar um renascimento que sempre acontece? Não é engraçado termos um feriado no mês e no fatídico dia termos a mesma idéia que todo mundo tem e viajar para o mesmo lugar que todo mundo vai? Não é engraçado irmos a uma mera sessão de cinema e pegarmos filas enormes? Não é engraçado esgueirarmo-nos no meio de um monte de gente em estações de metrô e sermos levados como o bezerro em estouro de boiada em direção à porta? Por que não rir de tudo isso e estabelecer a comédia? Estabelecida a comédia, faz-se a crítica.
Comédia como pensamento formado - Na dimensão da tragédia e do drama não temos pensamentos. Há alguma irracionalidade no drama que é o que lhe dá sentido. Um drama, se racionalizado, não existiria. A idéia do drama é justamente ser emocional, erótico e temeroso. A tragédia também não é um pensamento. Parece mais uma corrida confusa, uma série de más interpretações e opções que sempre incorrem no destino fatal e trágico. Aqui temos o mundo das idéias em conflito com o mundo real: tentamos controlar o destino incontrolável. Mas na comédia temos um pensamento formado.
O que dizer de Lisístrata, a personagem feminina e poderosa de Aristófanes? Em nome da paz, as mulheres dos homens gregos resolvem fazer greve de sexo. O que isto significa? Comédia é claro. Temos aí um pensamento claro: o animal humano precisa satisfazer suas pulsões. Ao ser privado de uma das mais primárias delas, faz de tudo, até mesmo promover a paz entre as cidades gregas. Ora, está aí um pensamento formado, um plano perfeito, com todas as suas relações de causa e efeito. Está aí o logos.
O homem, com sua capacidade de discernir, passou a inventar símbolos para definir os signos da natureza. Imagina-se que a comédia tenha sido de grande importância na aurora da evolução. Isto porque o riso sempre foi um divisor de mundos.
O que dizer de um ditador que ri diante dos desesperados que imaginam ser capazes de destituí-lo do poder? Ou ainda, de Einstein, que nos mostra língua e sabedoria em foto tão descontraída? O riso nos divide e nos une.
Mas a dimensão da crítica é complicada. Por vezes temos a crítica como ofensa e buscamos defender-nos. Acuados, não nos deixamos levar pela crítica e evitamo-nas. É fato que, sendo o homem igual ao homem em capacidade de raciocínio, a crítica não se dirige ao homem em si, mas à sua contingência ou ao seu ato.
É claro que a crítica a um ato do passado só pode servir ao futuro. A crítica a um ato contingente, no entanto, é sempre mais dura, já que o objeto criticado não se comporta passivamente recebendo tantos pensamentos contrários aos dele. A dor de ser criticado está em todo humano. Daí a importância da comédia.
A comédia é a crítica comedida. Do riso extrai-se o ambiente adequado para a crítica, para a quebra das barreiras defensivas. As piadas são exemplos clássicos de críticas comedidas. Temos as piadas funcionais, por exemplo. Dentre as clássicas, temos as piadas de advogado. O advogado é visto como um sujeito aproveitador, esperto, inteligente e cheio de picardias. Não por acaso as piadas refletem uma realidade. Os advogados custam caro e, muitas vezes, defendem clientes sabidamente indefensáveis apenas pensando no dinheiro que resultará da ação.
Engenheiros são vistos como eternos e incansáveis técnicos, sempre reinventando a roda e mais preocupados com as novidades tecnológicas do que com suas próprias pulsões.
Judeus, árabes e turcos são vistos como comerciantes espertos e de mão fechada, nunca dispostos a soltar o seu rico dinheirinho.
Mulheres loiras são vistas como exemplos de falta de inteligência e frivolidade.
Aos pobres das piadas é dado o direito de sofrer todas as mazelas que a pobreza lhe traz. E alegria de pobre, ainda por cima, dura pouco.
Aos homens desconhecedores das práticas adúlteras de suas mulheres é reservada a passividade, a aceitação e a ingenuidade do desconhecimento do que andam suas mulheres fazendo.
Aos homossexuais é reservado um mundo cheio de trejeitos e chiliques, inaceitáveis socialmente.
No mundo das piadas tudo parece colorido e divertido. Mas as críticas contidas nas piadas seriam duras se fossem feitas de maneira direta e incisiva. A comédia tem um poder de abrir defesas e se deixar entrar na direção do objeto criticado. Muitas vezes tem-se que o objeto criticado nem mesmo nota que a crítica é com ele e, muitas vezes, tentará não parecer igual ao modelo da comédia para que não façam piada dele mesmo.
Assim, a comédia como pensamento formado se estabelece e exerce sua funcão crítica na sociedade de demonstrar tudo aquilo que seria se fosse.
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