15 de dez. de 2007

Plantei a semente

Hoje cedo peguei a semente
de dentro da fruta que mastiguei.
Eu a senti lá, entre meus dentes,
e por segundos eu a ignorei.

E súbito então que pensei,
pobre dela, uma semente a ser plantada.
Dane-se, foi aí que mastiguei!
E a mesma escorregou na mastigada.

Ora, que legal, ela está viva.
Não quis morrer, ela tem é que dar vida.
Minha mente, desativada então se ativa,
e que se dane! Pisei na preterida.

Que interessante, foi então que meu chinelo
pela semente no chão foi deformado.
E o grão, sem nada de tão belo,
deveria rir interiormente. Desgraçado.

Foi então que chutei o pedacinho
de vida pra fora da minha casa.
E veio de repente um passarinho
que bicou e enterrou a desgraçada.

- Fique fora desde já da minha morada!

E então, despreocupado com a semente,
me deitei no meu quarto e fui dormir.
E à noite, no meio do nada, de repente,
acordei com pesadelos de semente
no qual a desgraçada ainda queria me engolir.

Fui lá fora, com uma enxada em minha mão
e cacei a maldita ali enterrada.
Não achei o ponto em que o azarão
do passarinho enterrou a retardada!

Que ódio, foi então que não deitei,
ainda mais com a chuva que caía.
E a semente mais pro fundo ia
e resolvi rezar por ela: "Crescei!"

Pois bem, no outro dia me levanto,
e uma muda aparece no quintal.
Já grandinha, porém eu não me espanto:
numa muda não há nada de anormal.

Noutro dia, derradeiro me assusto
com o tamanho desproporcional.
A muda crescera a qualquer custo
sem me deixar cobrar lugar no meu quintal.

E um mês então se tinha passado
e a muda uma criança já não era.
Quase uma árvore grandinha se pusera
à minha frente, como se eu fosse um desgraçado.

E num ano a semente era gigante,
que se enraizava bem na minha frente.
Suas raízes iniciavam um levante
e meu lar mudou-se mais adiante.

Eu então até pensei: "Posso ser vil,
mas se ela me der alguns bons frutos..."
E a maldita nunca me floriu
e não pude gozar do bem gratuito.

E a sombra da enorme gigantesca
começou-se a adiantar-se pro vizinho.
E a vingança começou a ser grotesca,
e nenhum pássaro nela fazia ninhos.

De repente a desgraçada me floresce
e deixa cair os seus maduros
na caso do vizinho, que agradece
pelo nobre gesto meu. É muito duro.

A serra foi então que preparei
para cortar o mal pela raiz.
Nunca com tanto gosto cortei
uma árvore, como se fosse meretriz.

E a desgraçada me cai pro outro lado
e desse lado lá se via a minha morada.
Até na morte ela me faz de desgraçado
e pra mim é ela que é a desgraçada!

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