Aos 45 anos, Mário Vítor Santos, ex-ombudsman da Folha de São Paulo por 3 mandatos, tem feito estudos sobre a imprensa. Professor de História da Comunicação da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, Mário Vítor vem se atualizando em seus estudos e elaborando uma auto-reflexão sobre a imprensa no Brasil. Em entrevista exclusiva ao MadLeo.com.br, deu suas impressões sobre a mídia em geral. A entrevista esta que aqui publicamos na íntegra.
O que você acha da liberdade de imprensa no Brasil?
A liberdade de imprensa foi consagrada nas leis brasileiras a partir da Constituição de 1988 como direito fundamental: o direito à informação. Deve ser assegurada a todos os cidadãos. É uma liberdade fundamental porque é a partir desta liberdade que se pode garantir o funcionamento de uma democracia que seja inclusiva, que abarque camadas amplas da população no debate democrático. No entanto há vários empecilhos que impedem esta liberdade de imprensa de ser exercida. O exercício de liberdade de imprensa está limitado pela necessidade de empreendimentos de grande vulto econômico aos quais nem todos os grupos sociais têm acesso. As vozes presentes na democracia brasileira são vozes que reproduzem o modelo injusto de distribuição de renda. O Brasil é o campeão mundial de desigualdade de renda. Por isso há uma desigualdade na distribuição da informação acarretada. A liberdade de imprensa formal precisa ultrapassar as barreiras econômicas.
Um ombudsman faz pesquisas com a ética jornalista. No Brasil, há pouca pesquisa direcionada à mídia, diferentemente dos Estados Unidos, onde há grandes estudos sobre o assunto.
O que eu acho é que há dois aspectos sobre este tema. O estudo americano sobre a imprensa parece mais um mapeamento das características do exercício da profissão de jornalista como categoria profissional. O jornalismo é encarado como sendo algo negativo. Os americanos estão muito preocupados com a invasão da privacidade, com a difusão de padrões morais que sejam contrários à sua convivência. Eles são receosos com notícias que possam ameaçar a segurança do Estado. Parece que a crítica da mídia nos Estados Unidos também se subordina a estes padrões culturais da sociedade americana. A crítica européia me parece mais interessante, pois tenta analisar o fenômeno da comunicação como um todo. Ela tenta se distanciar deste fenômeno e apontar suas limitações. Parece preparar melhor as pessoas. Mesmo com todo o seu elitismo, consegue criar um leitor mais crítico e distanciado.
Os filmes QUARTO PODER e MERA COINCIDÊNCIA fazem críticas à imprensa americana, da forma como ela manipula os fatos, resolve problemas governamentais, dentro outras coisas. A Imprensa do Brasil já atuou ou atua como o Quarto Poder?
A imprensa brasileira atuou recentemente como o Quarto Poder na cobertura dos eventos que acabaram levando à renúncia do presidente Fernando Collor.
Bem como à sua eleição?
Esta é uma questão interessante. É sabido que alguns veículos da imprensa - especialmente a TV Globo - tiveram participação ativa na veiculação de notícias sobre a candidatura Collor. Houve suspeita de que havia um conluio entre a TV Globo e o candidato Fernando Collor no objetivo de derrotar a então poderosa candidatura Lula à presidência do Brasil. Isto corrobora a minha tese de que há vínculos importantes entre as diversas formas de mídia. Há uma espécie de conexão entre os interesses ideológicos, econômicos e algumas realidades tristes do país. No frigir dos ovos, nós temos visto uma incômoda participação da mídia em alguns eventos eleitorais e em alguns processos políticos. Isto se baseia numa certa falta de credibilidade que noto entre os veículos de comunicação e a população em geral. Um certo comprometimento da imprensa que a população percebe, nem sempre de maneira agradável. A população nota que a missão de um meio de comunicação não está sendo cumprida. Isto é preocupante.
Por que a imprensa acompanha determinados eventos e abandona outros? Isto é colocado pelo interesse do público, é determinado pela existência de notícias, ou isto seria determinado por interesses ocultos, de acordo com o interesse do meio em si?
É preciso que haja uma pesquisa, um trabalho mais sistemático a esse respeito no qual se estabelecesse menos subjetividade. Algum tipo de argumento que provasse se há uma teoria mais acertada, ou se há teorias em conjunto, ou uma combinação entre elas que explicariam melhor o que merece ou não merece destaque na pauta de prioridades da mídia. Quem trabalha com mídia sabe que não é simples esta questão. Há a questão da concorrência, por exemplo. Não se pode esquecer que a concorrência determina. Quando um jornal dá um furo, por exemplo, a tendência dos outros meios é reagir em rebanho e partirem todos à cata da mesma informação. Este é outro fator que precisaria ser isolado e determinado mais adequadamente. Na mídia, alguns fatores determinam as prioridades. Primeiro e fundamental: política. Um fator fundamental é a margem de apoio social que a pessoa enquadrada no noticiário, seja Collor, FHC ou Itamar Franco, tem junto a população. Um presidente forte tende a ser menos investigado que um presidente que apresenta altos índices de desaprovação da opinião pública. Este é um patamar a partir do qual você pode estabelecer muita coisa. Segundo: as irregularidades cometidas pelo poder público em prejuízo da população, seja estatal, seja governamental, tem maior atenção do que as falcatruas cometidas pelo setor privado. Há uma relação umbilical entre os meios de comunicação - que são privados - e a chamada economia privada. Há um compromisso, uma certa timidez na cobertura das irregularidades cometidas por empresas privadas, o que não ocorre quando essas irregularidades são cometidas pelo poder público. É necessário lembrar que, mesmo quando falcatruas são cometidas pela economia privada, prejudicam a população em geral. As questões envolvendo falsificação de pílulas, por exemplo. Por mais que recebam cobertura, recebem menos atenção do que um escândalo em torno de uma Petrobrás, ou do governo FHC. A imprensa sente-se muito mais à vontade para trabalhar com irregularidades no setor público do que aquelas que possam ferir os sentimentos de empresários, potenciais anunciantes, colegas de comando de setores econômicos. Inclusive quando há uma união entre poderosos empresários do setor privado e o Estado em algum tipo de falcatrua, a investigação dos aspectos relativos ao Estado avançam muito mais. Há uma cobrança muito maior da imprensa e dos meios de comunicação em relação aos compromissos do Estado do que em relação às más intenções por parte das empresas privadas. Eu julgo que há um corpo único na união entre empresários privados interessados em obter vantagens a partir de irregularidades cometidas pelo Estado, pelos funcionários públicos e pelas estatais. Especialmente quando isso envolve grandes anunciantes, como na CPI dos precatórios [que envolveu o poderoso Banco Bradesco S. A.]. A imprensa protege os corruptores, que em geral são inocentados. Isto explica por que os processos afinal nunca vão adiante.
A imprensa critica a imprensa? Por que há um medo dos meios de se criticarem diretamente? A Folha busca a autocrítica com o Ombudsman, mas como os outros meios da imprensa se criticam?
Será que haverá qualquer tipo de punição aos meios de imprensa? Ou aos eventuais erros que a imprensa possa cometer? A expectativa que temos é que haja alguma ação paulatina dos sistemas. Que haja cada vez mais agentes conscientes que possam estabelecer uma cultura alternativa. Que divulguem uma abordagem mais crítica em relação ao papel dos meios de comunicação. Os compromissos de comunicação pública têm expressão, têm um compromisso com o público. Este compromisso tem de ser cobrado. É preciso que haja algum tipo de consciência coletiva a partir da qual se estabeleça alguns valores os quais os meios de comunicação terão de respeitar sob pena de serem rejeitados e perderem posições junto ao público. A punição ou a cobrança parece-me cada vez mais uma atitude de estruturas isoladas. Isto tem a ver também com o momento em que vivemos. A própria globalização parece ter influenciado muito na maneira como as pessoas se relacionam com a mídia, criando um ambiente de muita complexidade e dificuldade.
A imprensa brasileira e os brasileiros não têm memória?
Por um lado, é possível dizer que o brasileiro não tem memória, não tem preocupação com a história. Embora eu tenha alunos jovens, recém-chegados à faculdade que não têm memória, mas que estão estudando pra se apoderar desta bagagem fundamental para o desenvolvimento de suas carreiras.
Eles não deveriam trazer um pouco desta bagagem às faculdades?
Seria bom que tivessem. Se não vêm com esta bagagem não quer dizer que os alunos não venham a ter memória. O que é criticado é que não haja interesse em ter memória. A memória estabelece parâmetros de comparação. Estabelece possíveis linhas de coerência. Estabelece ainda linhas de compromisso dos meios de comunicação com determinada abordagem diante da história e da cultura do país. Atualmente existe um vasto interesse sobre o assunto. Jamais houve na História do país um interesse tão intenso pela História da Comunicação. Basta identificar as enormes tiragens de alguns livros que abordam especificamente algumas personalidades da História dos meios de comunicação deste país, como Assis Chateaubriand, Nelson Rodrigues, Mário Filho. São livros que tratam tanto de processos antigos, como do histórico contemporâneo do jornalismo. A tiragem de Notícias do Planalto foi astronômica. Assim como a de Chatô, Rei do Brasil, Anjo Pornográfico... há um interesse grande, eu acho, por um certo contato com o passado. Talvez mais interesse em torno de pessoas da imprensa, de algumas personalidades. Vale a pena pensar se o interesse pelas pessoas do passado não acaba determinando o que elas fizeram e o que elas representaram no processo histórico do Brasil.
Como foi criticar um jornal? Difícil?
Todos os que passam por lá sabem que não é fácil. Incomoda interesses estabelecidos, incomoda vaidades, pode incomodar o dono jornal...
Já pensaram em acabar com a coluna do ombudsman?
Certamente já chegaram a cogitar essa hipótese em algumas ocasiões. O que é previsível, porque não há nenhuma pessoa que tenha uma coluna dessas em seu jornal funcionando de maneira independente que não queira eliminar este foco de incômodos. Apesar de tudo a coluna é mantida. Parece que além de qualquer interesse de marketing, o ombudsman tem se destacado modestamente. De forma limitada tem contribuído na criação de um espaço de crítica à mídia a partir da própria mídia. O que eu acho que tem o seu papel, embora não seja a melhor maneira de fazê-lo. Apesar disso tudo acredito que este cargo tem de ser cultuado em outros veículos como demonstração de adesão aos princípios de transparência que, em geral, eles exigem dos outros setores da sociedade.
Qual o tipo de personalidade que um ombudsman tem que ter?
Um ombudsman tem que ter coragem, independência, sinceridade, desprendimento e emoção para colocar um anúncio às dificuldades que trazem algum tipo de justiça e veracidade e paixão pela verdade que deve nortear o jornalismo. Evidentemente esta é uma definição romântica da qual eu, ainda, bem ou mal, não consegui me libertar.
Qual foi o caso mais engraçado que já aconteceu com você?
O caso mais engraçado que eu tive foi de um rapaz que veio estudar em São Paulo. Este rapaz foi entrevistado pela Folha para uma reportagem que tratava de consumo de drogas. Segundo ele mesmo, não houve gravação. Um repórter da Folha perguntou a ele se gostava de maconha, se fumava maconha. Ele disse que nunca tinha fumado, mas tinha ouvido dizer que a maconha fazia bem, que relaxava. Quando ele viu suas declarações publicadas, o titulo que encimava a matéria chamava-o de "defensor radical da maconha". O pai, do interior, leu a edição do jornal, viu o nome do filho publicado e ligou imediatamente para o filho cobrando-o: "Vem cá, você acha que eu estou pagando os seus estudos em São Paulo para você ficar fumando maconha? E não só ficar fumando como sair declarando que fuma, gosta e espera que os outros fumem também?" O meu trabalho foi de conseguir o desmentido da Folha e que a vida do rapaz voltasse ao normal.
15 de dez. de 2007
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