Hamlet diz que o mundo é uma ilusão. Diz, pois é ainda válido tal pensamento. Vive-se na prisão da razão. Moramos num mundo contraditório, pois a liberdade que acreditamos possuir consiste em escolher entre opções pré-determinadas. Ser ou não ser?
Não ser. Não estar. Em inglês não há distinção entre estado e essência. Ser (e estar) exige vontade. Esta grande força transformadora, no entanto, não nos torna mais felizes. Entenda-se por felicidade um estado de alegria tão efêmero quanto à duração de Casa dos Artistas.
Buscamos cotidianamente a sobrevivência no emprego, o empenho nos estudos, os trabalhos caseiros, as conversas sobre nossas vidas. Apesar de cada dia ser diferente do anterior, criamos a ilusão de que tudo é igual e repetitivo. Não encontrando saída desta prisão, busca-se a ilusão do prazer fútil e efêmero da vida alheia.
Escolhe-se não ser. E não estar. O telespectador, por exemplo, não está na poltrona de sua casa. Ele faz uma viagem astral ao reino da novela, ao reino dos filmes de luta, ao reino das garotas de cabaré dos programas de auditório. Ele se transporta ao reino que lhe dá mais prazer sensorial, evitando a interferência do pensamento chato que insiste em cutucar-lhe. Seu livre-arbítrio opta, temporariamente, pelo não-ser. Eis a questão.
Que esta é a escolha feita pela maioria já se sabe. Mas por que a sensibilidade estética empobreceu tanto? Provavelmente porque o homem não encontra em seu cotidiano qualquer tipo de felicidade. Prefere escolher a felicidade virtual, devidamente embalada na caixa azul no centro da sala. Opta, acima de tudo, pelo desistir em vez do existir.
Por que não assistir a Hamlet criticando a vida numa casca de noz? Simples: adoramos cascas de nozes. Sente-se muito bem ao saber que todos os desejos de morte e prazer sensual serão resolvidos hoje às dez da noite.
Ser ou não ser? Deveríamos viver o real e pensar sobre ele a maior parte do tempo. Com isso trariamos de volta um senso estético mais próximo da perfeição. No entanto, a massa quer a ilusão. E os meios querem vendê-la. Não porque os meios não pensem, mas porque sabem que a fumaça do ópio vende muito mais que o ar puro. Eis aí o círculo viciado da ilusão.
Para quebrar o círculo teríamos de escolher a crítica. Mas não cabe só aos meios de comunicação fazê-lo. É necessária uma mudança mais completa em toda a sociedade. A crítica deveria ser a maior lei. A busca da perfeição deveria ser a meta de todos os seres vivos. Infelizmente, o único lugar em que tudo isso acontece é na cidade de Utopia, no Inferno de Hades da mitologia grega. Espera-se, no entanto, que um dia a idéia fique mais próxima do real.
Crítica como realização da idéia - A crítica é a maior força destruidora de conceitos. Conceitos que não servem para a sociedade atual. Os modelos atuais merecem críticas pois possibilitam a guerra, o ódio, a diferença, a injustiça e a dor. Tudo isso leva ao medo, e o medo nos faz criar histórias terríveis. Temos de evitar a paranóia e a tristeza e buscar um maior contato com a vida e a igualdade.
Esse pensamento só existe em idéia. Há, no geral, uma sensação de que tudo é bom. Sim, porque há a ilusão. Vivemos bem, confortavelmente, em frente ao quadrado mágico de nossas salas nos sentindo bem. Iludindo-nos com as imagens dos jornais, achando que tudo aquilo é longe daqui. Mas não é.
E criticamos porque percebemos os erros. A crítica é feita por quem entende a vida. E dói entender que o ideal está tão longe do real. Tantas coisas são ideais, portanto ilusórias, que não conseguimos nos ater à realidade. A crítica traz a realidade de volta. Para a frente dos nossos olhos. E nos faz lembrar que existe um ideal.
O ideal faz parte do inconsciente coletivo. Está junto com os símbolos. As pessoas identificam a cruz e a história dos comerciais com a mesma calma que encontram no conforto e no silêncio.
A crítica nos faz lembrar que somos meros animais vivendo em um só planeta. Que, se fazemos mal ao planeta, estamos fazendo mal a nós. O planeta é nosso útero e nós ainda não saímos da placenta. Precisamos idealizar o melhor caminho para a união para, juntos, nascermos de novo.
A aurora da humanidade não é alcançada. Mas temos tantas críticas a fazer que nos esquecemos das nossas próprias missões.
A missão de todos é criticar. E ter vontade. A vontade é a mãe da transformação. Através dessas duas forças podemos criar um mundo melhor. Um mundo mais condizente com o não-lugar que hoje é a Utopia.
Transformar a Utopia em lugar, isto é, mudar a nossa realidade é a missão da crítica. Isto escrito, temos de imaginar o quanto isso não se aplica às nossas vidas. Temos muitas coisas para fazer para mudar. E o fazer exige a vontade. A vontade de mudar o mundo que, dizem, os rebeldes têm.
O maior adversário da crítica é o conservadorismo. E o conservadorismo tem várias facetas. Ora nega a mulher nua, ora a aceita. De vez em quando observa as cervejas e as gotinhas escorrendo na pele de garotas na praia. Sente um comichão, ou nojo. Hesita entre os dois e escolhe os dois porque sabe ser contraditório.
Só que contraditório sabe a café mal-passado. Com gosto de batatas. E a crítica odeia café fraco. A crítica admira o gosto do café, assim como adora o sabor de um bom vinho. Tudo isso pode ser apreciado naturalmente, sem precisarmos de guerras, bombas, mortes, infelicidades. Sem precisarmos sentir a dor de existir o tempo todo.
O cheiro da vida está no ar. O crítico sabe disso. Cabe a ele dizer o que estamos fazendo de errado. Erramos ao apostar na ilusão de um texto de novela em nossas vidas ao evitarmos o mundo lá fora. Temos de nos ater às mudanças que transformariam o mundo. O crítico sabe disso tudo e faz o seu papel, colocando lá os valores necessários para as mudanças que ele julga necessárias.
Mas a crítica é baseada num julgamento. Numa imposição de valores que subvertem determinado tipo de realidade. E temos que fazê-la para criar a vontade de mudar o mundo para algo melhor.
Essa mudança se aplica nas pequenas coisas. A cultura pode ser uma ferramenta muito importante se bem utilizada. Podemos, perfeitamente, criar outros tipos de símbolos. Símbolos de mudança e transformação. E sentirmos qual é o nosso real objetivo: viver ou não?
A escolha sábia deve ser tomada. Saibamos que o mundo pode melhorar e que podemos viver melhor se assim quisermos. E façamos a crítica. Assim poderemos resgatar na sociedade a sociedade que desejamos.
O objetivo maior de nossas vidas é sentirmos menos dor e mais prazer para que a vida seja melhor. Resta apenas criar as estradas para trilharmos o caminho mais correto. Aí já não falamos mais da crítica. Falamos da vontade. A vontade é o próximo passo da crítica. E, se queremos mudar o mundo - a começar pela cultura - teremos de chegar lá.
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