15 de dez. de 2007

Chatô, O Rei do Brasil

Há quem diga que Chateaubriand foi um francês que fez sucesso no Brasil ao trazer o avião, a televisão e o modelo de imprensa internacional. Mal sabem que este mesmo Chateaubriand era, na verdade, um paraibano de Umbauzeiro, mesma cidade do ex-presidente Epitácio Pessoa. Poucos sabem que era titular de uma cadeira da Universidade de Pernambuco, que fazia parte da Academia Brasileira de Letras e que chegou a ser senador e Embaixador do Brasil na Inglaterra.

Todas as incursões de Chatô nesse mundo estão no livro colossal de Fernando Morais. Chatô, O Rei do Brasil - Fernando Morais, Companhia das Letras, 1994, 734 páginas - mostra o cotidiano de um movimentado país entra as décadas de 1910 e 1960. Décadas estas em que Chateaubriand mostrou o seu brilho e seu estilo a um país desacostumado a tantas desventuras e bravatas como as contadas neste livro.

A obra é densa. Fernando Morais não dispensou pesquisas, entrevistas e, principalmente, palavras. O farto material fotográfico e documental obtido no decorrer da elaboração do livro é, no mínimo, notável. Durante a leitura, o leitor tem a impressão de estar sendo transportado para a época do acontecimento dos fatos. Os detalhes não são esquecidos. Até mesmo uma pequena passagem corriqueira da vida de Chateaubriand torna-se algo indispensável para a total compreensão da obra.

Chateaubriand era um homem de personalidade. Sua aura estaria presente na vida de políticos, industriais, fazendeiros e magnatas do Brasil por onde quer que fosse. Era considerado intocável por muitos - em parte por que andava armado com duas perigosas armas: um jornal e um revólver. Poucos se atreviam contra a imprensa de Chatô. Sabiam que corriam o risco de retaliação por parte de sua cadeia de jornais, revistas, rádios e televisões. Televisões estas que ele mesmo trouxe ao Brasil.

Com tantos afazeres, falar da vida deste homem se torna complicado em menos de setecentas páginas. É claro que, por muitas vezes, tem-se a impressão de que alguns fatos poderiam ser vetados em detrimento da facilidade de leitura. Nota-se também que o autor não se utiliza de recursos estilísticos de forma a tornar a leitura mais simples. Ele se utiliza, por muitas vezes, de longos parágrafos, com frases compridas e demoradas. Bom para o leitor mais perspicaz, acostumado às mais diversas variedades de estilo. No entanto, Chatô esteve por toda parte no Brasil por mais de 50 anos e hoje anda apagado da memória do brasileiro. O livro mereceria tocar não apenas à parte mais letrada da população, mas a todos aqueles que têm acesso à leitura e apreciam algo menos denso.

Faz-se necessário lembrar que a história de Assis Chateaubriand se mistura à história do Brasil. Para quem não sabe, Chatô se envolveu com a Revolução de 30, com a Revolução Constitucionalista de 32, com o golpe do Estado Novo e com o Golpe de 64. Em todas essas etapas, Chatô esteve presente como o "homem da imprensa" que apoiava o governo (ou derrubava governos) com o poder de um lápis e de um papel. Sabia, mais que ninguém, como exercer a tarefa de dono de jornal. Era dono da idéia de que "quem quiser ter opinião, que compre seu próprio jornal".

Para quem pouco conhece o Brasil e sua História, ler Chatô é obrigatório. Obrigatório não só para observar o Brasil da época, mas para duvidar da documentação jornalística. Com Chatô, assiste-se ao mais complexo festival de opiniões na imprensa. Opiniões pessoais, até. Se se espera um jornal imparcial, um documento do cotidiano, Chatô subverte todas as expectativas. Ao subvertê-las, modifica todo o âmbito de seus fiéis leitores-escudeiros. Modifica-a como se fossem os ponteiros de seu relógio, a seu favor. Adiantando sempre o ponteiro para nunca chegar atrasado.

"Chatô, o Rei do Brasil" é a história da vida vertiginosa de um dos brasileiros mais poderosos e controvertidos deste século. Uma história de vida, portanto. Mas não é a história do homem que importa, mas sua própria vida. Vida esta que tanto mudou o país, como uma agulha muda todo o sentido de um palheiro. Utilizando apenas os seus garranchos - sempre escrevia à mão com letra ininteligível - Chatô foi capaz de mudar um país com a mesma intensidade que aquele asteróide, um dia, destruiu os dinossauros.

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